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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TROPICALISMO É TEMA DE CARNAVAL NO PELOURINHO

Atemporal e libertária, Tropicália revoluciona cultura há 50 anos

Em entrevista ao G1, Gilberto Gil e Capinam falam do movimento cultural.
Tropicalismo marca tema do carnaval do governo da Bahia, no Pelourinho.

Danutta RodriguesDo G1 BA

Capa do disco Tropicália ou Panis Et Circensis, que marca o movimento tropicalista: Na foto da capa, Gilberto Gil segura a foto de Capinam, Caetano Veloso a de Nara Leão; Rogério Duprat, com um penico na mão, Gal Costa ao lado de Torquato Neto; Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, dos Mutantes, com instrumentos nas mãos, e Rita Lee entre os dois; Tom Zé acima e no canto direito da foto de Oliver Perroy (Foto: Arquivo pessoal)

As águas de Amaralina continuam azuis como na canção. Movimento atemporal e libertário que revolucionou a cultura brasileira, a Tropicália completa 50 anos e recebe todas as homenagens na maior festa popular, o carnaval da Bahia. A ode ao movimento começa nesta sexta-feira (24), no circuito Batatinha, às 20h, no Pelourinho, com o encontro de dois tropicalistas: Gilberto Gil e José Carlos Capinam. Com influência na música, artes gráficas, design de objetos e instrumentos, assim como em roupas e comportamento, a Tropicália mudou a direção da cultura brasileira.

Hoje eu sou um artista mais maduro e sem dúvida alguma a Tropicália foi fundamental para isso"
Gilberto Gil

"A Tropicália veio para ficar. Os esboços de movimento que se sucederam não chegaram a se tornar um movimento tão concisamente articulado como foi o Tropicalismo, com seus autores, os seus intérpretes, os seus exegetas, aqueles que explicaram o que era o Tropicalismo, mas tudo que veio depois", conta Gilberto Gil. A canção 'Tropicália', de Caetano Veloso, segundo Gil, é emblemática e descreve o movimento.

Para ele, um dos elementos fundamentais da estética tropicalista foi a guitarra elétrica, o que foi alvo de críticas na década de 60, quando o movimento se estabeleceu no cenário cultural brasileiro. À época, em meio aos duros anos da ditadura militar [1967 e 1968], a guitarra simbolizava o imperialismo americano.

"Naquela época, os tradicionalistas torceram o nariz, tiveram muitos problemas, mas a enxurrada da história, do tempo, e a revolução dos costumes, natural na vida moderna, foi mais forte do que tudo isso. E hoje, nós temos um panorama musical do Brasil...música de origem africana, música de origem latina, caribenha, mas também com elementos fortes da música europeia. Tropicalismo foi para isso. É como eu disse, Tropicalismo veio para ficar, ficou e vai continuar", defende Gil.

Ana de Oliveira, autora do livro e do site Tropicália
(Foto: Aline Macedo/Divulgação)

Para a pesquisadora e documentarista, Ana de Oliveira, idealizadora do site Tropicália, embora se insurgisse contra o regime autoritário, o Tropicalismo não se afinava com os proselitismos da esquerda.

"Também não se alinhava aos princípios da direita conservadora, claro. As impressões a seu respeito eram contraditórias: a esquerda o tachava de alienado e a direita o via como subversivo", destaca. Ela, que escreveu o livro 'Tropicália ou Panis Et Circenses', mesmo nome do disco que simboliza o movimento, ainda contou a famosa história do termo.

Segundo ela, o nome Tropicália foi dado por Hélio Oiticica a uma instalação dele, de 1967. A obra consistia em um ambiente labiríntico com plantas tropicais, areia, araras e um aparelho de televisão. "Por sugestão do fotógrafo e diretor de cinema Luis Carlos Barreto, a canção de Caetano Veloso foi batizada com o mesmo nome, ‘Tropicália’, e acabou designando também o movimento que apresentava, na música popular, o arrojo característico das vanguardas artísticas", resume.

Disco-manifesto contém doze faixas (Foto: Arquivo pessoal)

Tropicália ou Tropicalismo?
"A essa altura, os dois né? (risos). Na minha opinião, 'Tropicália' soa mais abrangente e libertário. O sufixo 'ismo', que sugere 'sistema' ou 'doutrina', parece não combinar muito com um movimento assistemático e iconoclasta como foi o liderado por Caetano e Gil. Mas o fato é que ambos os nomes pegaram e estão aí. Vamos de Tropicália e Tropicalismo!", explica Ana de Oliveira. Para o cantor e compositor baiano José Carlos Capinam, o Tropicalismo foi uma forma de expressar esteticamente todas as coisas que não são certezas, interrogações, especulações, pensamentos que tentam decifrar o enigma do subdesenvolvimento.

"O enigma de um país com tanta riqueza que não consegue assumir sua força, sua identidade, seu povo, sua cara, para realizar uma marcha diante dos outros países que corresponda à sua história, à sua grandeza, sua inteligência, o seu conhecimento. O tropicalismo fica sendo uma provocação a todas essas questões oriundas de uma dificuldade imensa de vencer o retrocesso, o atraso, a dificuldade de você acompanhar o mundo", conta Capinam. "O tropicalismo é uma tese sociológica que atribui aos trópicos uma condenação ao não desenvolvimento, à preguiça, a tantas coisas. Tudo pode acontecer sob a linha do Equador", completa.

'Uma vez tropicalista, tropicalista até morrer', diz Gilberto Gil em entrevista ao G1 (Foto: Alan Tiago/G1)

'Eu organizo o movimento'
Capinam conta que o encontro básico dos tropicalistas reuniu os três principais pensadores e formuladores da ideia, que eram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé. "O primeiro encontro que eu participei foi a convite de Gil no apartamento de Caetano em São Paulo e foi lá que eu tomei contato com as coisas que já estavam acontecendo, que estavam em processo. Nesse momento, estava pensando já uma peça, que foi uma peça básica do movimento, que é o disco Panis Et Circensis. E no dia que eu me reuni, Caetano escrevia um texto que acaba sendo o texto-manifesto do movimento que está na contracapa do disco. Essas são as coisas mais notáveis", lembra.

Segundo o compositor, outro nome importante do movimento é o do artista gráfico Rogério Duarte, também baiano e autor da capa do disco Tropicália, e outras, que morreu em abril de 2016. O cineasta Walter Lima, que produziu e dirigiu o documentário Tropikaolista – Rogério Duarte, que estreia esse ano no circuito comercial, destaca a participação de um dos principais nomes do Tropicalismo. "Ele era um homem brilhante. Uma mente brilhante, completamente não convencional. Era um iconoclasta. Ele não era só designer, ele era um pensador também. O cartaz do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, foi um divisor de águas no designer gráfico brasileiro. Enquanto tropicalista, ele estava sempre ao lado de Caetano, sempre por trás, sempre nos bastidores, dando dicas, conversando, conceituando", conta.

Rogério Duarte [o segundo, da esquerda para a direita] ao lado de Walter Lima [o terceiro, da esquerda para a direita], durante as filmagens do documentário Tropikaolista (Foto: Divulgação)

'O monumento não tem porta'
Três mulheres se destacam no Tropicalismo. Gal Costa, Rita Lee [à época, vocalista do grupo Os Mutantes] e Nara Leão, nome importante da Bossa Nova. Segundo Ana de Oliveira, três nomes que são exemplos de inconformismo e liberdade criativa. "Gal, no início da carreira, tinha uma imagem de cantora comportada e, de repente, chocou plateias ao aparecer com um visual hippie cantando ‘Divino, Maravilhoso’ em tom rascante e agressivo", conta.
Gal, no início da carreira, tinha uma imagem de cantora comportada e, de repente, chocou plateias ao aparecer com um visual hippie cantando 'Divino, Maravilhoso' em tom rascante e agressivo"
Ana de Oliveira, pesquisadora e documentarista

A pesquisadora ainda relata que no período em que Caetano e Gil estiveram exilados, no final da década de 60, o que teria dado 'fim' ao movimento, Gal Costa se manteve atenta e forte como porta-voz do Tropicalismo no Brasil.

"Rita, já em 1966, era a única integrante mulher de uma irreverente banda de rock: Os Mutantes. E Nara, tendo sido musa da Bossa Nova e depois participado do disco-manifesto tropicalista, demonstrava total independência em suas escolhas estéticas", completa.

Para ela, a participação de mulheres no movimento tropicalista não ocorreu em decorrência de preocupações de gênero, apesar do contexto da revolução sexual e o período de consolidação do movimento feminista.

Cantor e compositor Capinam fala sobre o encontro que originou o movimento (Foto: Danutta Rodrigues/G1)

'Coqueiro, brisa e fala nordestina'
Para Gilberto Gil, Caetano Veloso era o idealizador do processo. "Eu tinha muito apreço pela música do Caetano, além de ter uma admiração muito grande pela inteligência e pela maneira com que ele fazia a sua inteligência passear pelos vários campos da arte, da cultura, ele tinha um interesse muito grande no cinema, ele tinha um interesse muito grande na literatura, me ensinou também a gostar dessas coisas. Me ensinou muito sobre a música, me ensinou a fazer letra de música, por exemplo, então eu acabei sendo um discípulo dele", revela Gil.
[Caetano] Me ensinou muito sobre a música, me ensinou a fazer letra de música"
Gilberto Gil

O mestre tropicalista contou ainda que, na época, não tinha muita noção do que todo aquele movimento iria se tornar e representar na história da cultura brasileira. "Eu não tinha a menor imaginação. Eu queria fazer música e Caetano tinha um pouco mais essa noção dos processos e da capacidade de intervenção dos processos de forma mais dirigida a determinados propósitos e tudo. Democratização, abertura, ecletismo, diversidade, foram elementos, conceitos que vieram para trabalhar a tropicália de uma forma muito forte", relembra Gil.

Para Capinam, Tropicalismo também trata de sexualidade, estética, religião, política, filosofia, literatura, e trata da própria história da canção brasileira. "Ele se refere ao nosso, à mistura que nós temos da pieguice e da cultura crítica muito dura e bela. Uma coisa fundamental que o tropicalismo preserva e revela é a beleza, é o belo. O belo no sentido mais novo, no sentido em que o feio está também diluído. Não existe um belo tropicalista olímpico. É um belo distante, é um belo das coisas do mundo, o belo do destino humano, tudo isso está lá escrito nas canções", completa Capinam.

Tom Zé é um dos grandes nomes do Tropicalismo
(Foto: Divulgação)

Capinam ainda destaca a produção de quatro compositores no Tropicalismo. "As canções assinadas por Caetano e Gil, Torquato [Neto] e Tom Zé, elas são representativas dos elementos poéticos e que manifestam o que cada um desses autores, que não são homogêneos do que pensam do mundo e do que querem ser no mundo, são autores com muitas perspectivas e vivências diferentes".

Em 50 anos, o movimento continua a influenciar artistas contemporâneos e os mesmos artistas que agitaram a cena cultural em meio ao momento autoritarismo, repressão e censura promovida pela ditadura militar. "Hoje eu sou um artista mais maduro e sem dúvida alguma a Tropicália foi fundamental para isso. Uma vez tropicalista, tropicalista até morrer", canta Gil.