RADIO WEB JUAZEIRO : ENTREVISTA COM JORGE KHOURY

terça-feira, 5 de setembro de 2017

ENTREVISTA COM JORGE KHOURY

Jorge Khoury: "É preciso ter em mente que a crise vai passar"

Joyce de Sousa 

Jorge Khoury, superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)
João Alvarez | ASN | Divulgação

Conhecido pelo bom trânsito no setor público, o engenheiro civil e ex-deputado federal Jorge Khoury, que já foi secretário estadual por duas vezes, está agora à frente de um novo desafio: a superintendência regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), cargo que assumiu há pouco mais de um mês. Em entrevista exclusiva ao A TARDE, Khoury detalha as primeiras ações no Sebrae da Bahia, como parte de um conjunto de ações da instituição voltado para os negócios de pequeno porte. Traça, ao mesmo tempo, um perfil atualizado do setor, destacando ainda parcerias com os governos estadual e municipais, bem como os impactos de medidas no âmbito nacional.

Diante de um cenário tão adverso, como as micro e pequenas empresas vêm resistindo à crise? O momento tem exigido um esforço maior do Sebrae?

As micro e pequenas empresas representam mais de 90% do tecido empresarial brasileiro e, justamente por isso, têm uma grande importância na geração de emprego e renda, principalmente nos pequenos municípios. Na Bahia, temos 701 mil micro e pequenos negócios registrados, sendo 425 mil microempreendedores individuais e 276 mil empresas de micro e pequeno porte. Por serem empreendimentos com estruturas menos complexas, há uma capacidade maior de adaptação, em um momento de adversidade. Mas, um movimento que surge, motivado pela crise, é o que chamamos de empreendedorismo por necessidade: pessoas que perdem sua principal fonte de renda e buscam no empreendedorismo uma forma para manter seu sustento. Esse empreendedor necessita de uma orientação diferenciada daquele empreendedor que abre um negócio por oportunidade. Isso porque, em muitos casos, esses novos empreendedores encontram-se em momentos frágeis de sua vida financeira e estão em busca de um retorno rápido. Isso pode ocasionar a abertura de empresas sem planejamento e, consequentemente, gerar dificuldades para a manutenção no mercado. Assim, o Sebrae dispõe de soluções que auxiliam esses empreendedores na hora de abrir um negócio, a exemplo do Radar Sebrae e da Sexta da Oportunidade.

Na Bahia, temos 701 mil micro e pequenos negócios registrados, sendo 425 mil microempreendedores individuais

Jorge Khoury, superintendente do Sebrae 

Na Bahia, quais são hoje as principais parcerias do Sebrae tanto com o governo do estado quanto com a prefeitura de Salvador?

Podemos destacar algumas iniciativas, como a parceria lançada recentemente com o Governo do Estado para oferecer curso técnico de administração com ênfase em gestão empreendedora. Trata-se de uma metodologia que já foi implantada com sucesso pelo Sebrae em Minas Gerais. Na primeira turma baiana, 120 jovens vão ter o empreendedorismo na grade curricular, prevendo aplicação dos conhecimentos na carreira e na vida. Ainda no âmbito estadual, temos uma parceria para levar mais conhecimento acerca das oportunidades junto às compras públicas. Mostramos as possibilidades para as micro e pequenas na venda de produtos e serviços ao estado, beneficiados por um mecanismo da Lei Geral, que determina a exclusividade em licitações públicas de até R$ 80 mil. Já no âmbito municipal, o Sebrae faz parte de um convênio com a prefeitura de Salvador e o Senai/Cimatec para a disponibilização de recursos ao edital voltado para a inovação nas indústrias. No total, são R$ 3 milhões disponibilizados que serão distribuídos para 20 projetos que tenham foco em sustentabilidade e qualidade de vida da capital baiana. Somos parceiros também na certificação do Selo da Diversidade Étnico-Racial da Cidade do Salvador, que garante o reconhecimento público de empreendimentos que assumem o compromisso de desenvolver políticas de gestão de pessoas para a inclusão de colaboradores negros e negras em seus quadros, criando oportunidades de ascensão profissional. No programa Salvador 360, o Sebrae já está atuando no eixo Simplifica, por meio do qual apoiamos a prefeitura, tecnicamente, em relação a processos de simplificação de abertura, alteração e baixa das empresas em Salvador. Nosso apoio consiste também na interlocução com outras experiências de capitais que já conseguiram avançar na questão de simplificação de abertura de empresas. Ainda no Salvador 360, estamos estudando também o apoio em outros eixos do programa, como o de negócios, por exemplo.

Quais são, de modo geral, seus planos à frente do Sebrae?

Vamos trabalhar três aspectos principais: capacitação e informação; sustentabilidade; e a atuação ampla em todo o estado, com ações na capital e no interior. No campo que envolve capacitação e informação, consideramos essas ferramentas como as principais no auxílio ao empreendedor, especialmente dentro do atual cenário econômico. No que concerne ao processo de interiorização, já temos a visão e o empenho sistêmicos do Sebrae em todo o estado. O que vamos fazer é buscar, cada vez mais, a integração, no sentido de termos o foco igualitário entre todos aqueles que constroem esse momento no país.

É notório que os empreendedores têm buscado cada vez mais conhecimento

Jorge Khoury, superintendente do Sebrae 

Mas o Sebrae só possui hoje dez regionais na Bahia. É suficiente? Há projetos para ampliar essa presença no interior?

O Sebrae está presente nos principais polos regionais da Bahia: Barreiras, Feira de Santana, Ilhéus, Irecê, Jacobina, Juazeiro, Salvador, Santo Antônio de Jesus, Teixeira de Freitas e Vitória da Conquista. Além disso, as unidades possuem pontos de atendimento em alguns dos principais municípios dessas regiões, totalizando 27 espaços físicos de atendimento em todo o estado. Nos municípios em que não temos presença física, procuramos fechar parcerias com entidades locais para levar o atendimento do Sebrae. Outro ponto importante a ser destacado é que, na Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, está prevista, como papel das prefeituras, a criação das Salas do Empreendedor. São espaços voltados para levar orientações e informações a microempreendedores individuais e proprietários de micro e pequenas empresas, por meio de agentes nomeados pelas prefeituras e capacitados pelo Sebrae. Os empreendedores ainda têm à disposição as soluções a distância do Sebrae, como os cursos EAD, de ensino à distância, e a consultoria a distância, na qual o empresário recebe atendimentos especializados de até uma hora nas áreas de planejamento, finanças, legislação e tributação, atendimento ao cliente e planejamento contábil. Nesse casos, o empresário tem a vantagem de acessar os conteúdos ou contar com atendimento, no caso da consultoria, sem precisar sair de sua empresa.

Como está o Sebrae da Bahia em relação a outros do país?

Somos pioneiros em lançamentos de programas que têm foco no empreendedor por necessidade. Destacamos dois deles, lançados recentemente. O primeiro é o Radar Sebrae, que está disponível desde março, no site www.radarsebrae.com.br. O objetivo é auxiliar o empreendedor com informações sobre ideias de negócio e melhores localizações para abrir seus estabelecimentos, a partir de uma base de dados de 13 cidades. O outro programa é a Sexta da Oportunidade, que foi lançado no último dia 25 de agosto. A ideia é tornar as sextas-feiras um dia voltado para buscar conhecimento. Até novembro, serão ofertadas capacitações gratuitas que vão abordar temas diversos, como tendências de negócio, franquias, além de oficinas de modelagem de negócios.

Como o senhor destaca, o Sebrae oferece muitos cursos. Já há uma maior conscientização do pequeno e micro empresário de valorizar a capacitação como diferencial competitivo?

É notório que os empreendedores têm buscado cada vez mais conhecimento, seja para planejar a abertura de um negócio, seja para alavancar uma empresa já em atividade no mercado. Para se ter uma ideia, de janeiro a junho deste ano, foram realizados na Bahia cerca de 66 mil atendimentos presenciais pelo Sebrae, sendo 385 consultorias de balcão, 3.223 informações e 62.393 orientações técnicas. Já no atendimento à distância, foram 176.182 atendimentos no total. Num aspecto mais amplo, podemos citar a Pesquisa GEM 2016, que considerou, pela primeira vez, a faixa "experiência pós-graduação", e é, segundo o estudo, a de maior índice de indivíduos engajados em novos empreendimentos no Brasil: 22,9%. Isso revela que o empreendedor compreende a importância e, mais do que isso, a necessidade de se capacitar e se atualizar com conhecimentos que vão além do dia a dia de sua atividade.

Das medidas que estão sendo tomadas pelo governo Temer, quais merecem maior atenção das micro e pequenas empresas?

O novo Refis merece uma atenção especial. O governo, inclusive, prorrogou o prazo para adesão para o mês de outubro. O novo Refis permite o parcelamento de dívidas de impostos vencidos até 30 de abril de 2017 e também a possibilidade de negociar descontos em pagamentos à vista, como o abatimento de até 90% dos juros e de até 50% das multas. É uma oportunidade para as micro e pequenas empresas regularizarem suas situações fiscais e evitar que as dívidas se acumulem, colocando em risco o futuro das atividades.

O governo ameaça, caso a Reforma Previdenciária não seja aprovada, aumentar os impostos de forma generalizada, inclusive para o micro empreendedor individual. Isso pode afetar a regularização de um mercado informal que cresceu até mesmo por conta da própria crise no país?

De janeiro a junho deste ano, foram cerca de 66 mil atendimentos no estado

Jorge Khoury, superintendente do Sebrae

A informalidade já é uma realidade de longa data no Brasil e começou a mudar, justamente, com a criação da figura do microempreendedor individual. Mas isso não significa que a possibilidade de formalização como MEI vá eliminar, mesmo considerando um longo prazo, a questão da informalidade. São diversos fatores que influenciam essa realidade, sendo um deles a falta de conhecimento, em alguns casos, acerca dos benefícios da formalização, como a segurança social proporcionada. E, mesmo quando temos um número expressivo de formalizações, ainda temos que lidar com os índices de inadimplência que, apesar dos esforços de orientação do Sebrae e outras instituições, ainda são altos. Em 2016, por exemplo, mais de 3,7 milhões de MEIs no Brasil estavam inadimplentes ou inativos. Desde o dia 3 de julho, o MEI com boletos mensais em aberto até maio de 2016 pode parcelar seus débitos em até 120 meses. Então, há muitos esforços em prol da manutenção dos empreendedores na formalidade. Um dos papéis do Sebrae é disseminar o máximo de informação possível nesse sentido.

Embora já exista o Simples Nacional, qual, então, seria reforma tributária ideal?

O Simples Nacional já prevê um tratamento diferenciado para as micro e pequenas empresas. É um regime que permite o recolhimento de todos os tributos federais, estaduais e municipais em uma única guia. Uma das frentes de luta dos últimos anos foi a busca por estabelecer um limite maior de faturamento para os enquadramentos como MEI, micro e pequena empresa, para dar mais fôlego aos empresários e permitir que eles continuem crescendo dentro da legalidade. O Comitê Gestor do Simples já regulamentou o teto maior de faturamento para essas três categorias, que passa a valer em 2018. O limite anual do microempreendedor individual subirá de R$ 60 mil para R$ 81 mil. O de microempresa, que atualmente é de 360 mil, subirá para R$ 900 mil por ano. Por fim, o faturamento anual de pequenas empresas passará de R$ 3,6 milhões para R$ 4,8 milhões.

Considerando o contexto atual da economia, em que ainda pairam dúvidas se o processo de retomada da economia virá em médio prazo, qual a mensagem para as MPEs baianas?

A palavra-chave é conhecimento. É preciso ter em mente que a crise vai passar, e quem continuar buscando capacitação e conhecimento sairá desse atual momento ainda mais fortalecido. É na crise que surgem as oportunidades. Ela só vai nos atingir, de fato, se cruzarmos os braços. Vamos substituir o tradicional por novos métodos e novas caminhadas.

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