RADIO WEB JUAZEIRO : "ESTUPRO DE MULHERES ERA COISA COMUM NO EXÉRCITO NORTE-COREANO", DIZ DESERTORA

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

"ESTUPRO DE MULHERES ERA COISA COMUM NO EXÉRCITO NORTE-COREANO", DIZ DESERTORA

Desertora do Exército norte-coreano relata rotina com estupros, higiene precária e menstruação interrompida


Levada ao serviço militar para escapar da fome que devastava o país, ex-soldado detalha condições de vida e abusos enfrentados por batalhão femininos, entre 1992 e 2001, quando serviu. Fontes ouvidas pela reportagem revelam que ainda hoje dificuldades persistem

Uma ex-soldado da Coreia do Norte diz que ser mulher no quarto maior exército do mundo era tão desgastante para o organismo que ela logo parou de menstruar. E estupro, afirma, era uma realidade para muitas das companheiras com quem serviu.

Mulheres tinham rotina de treinamentos mais leve que a dos homens, mas ainda assim com carga suficiente para afetar o funcionamento do corpo | Shutterstock

Foto: BBCBrasil.com

Por quase 10 anos, Lee So Yeon dormiu na parte de baixo do beliche, em uma sala que dividia com mais de duas dúzias de mulheres. Cada uma delas possuía um gaveteiro para guardar seus uniformes. Em cima do móvel, cada uma mantinha duas fotografias emolduradas. Uma era do fundador da Coréia do Norte, Kim Il-sung. A segunda, do seu agora falecido sucessor, Kim Jong-il.

Lee partiu há uma década, mas mantém o cheiro daquele lugar vivo na memória.

“Nós suávamos bastante. O colchão em que dormíamos era feito de cascas de arroz e não de algodão. Então, todo o odor do corpo penetrava no colchão. Todo o odor de suor e outros cheiros estão ali. Não é agradável”.

Uma das razões para isso eram as condições das instalações de lavagem.

“Como mulher, uma das coisas mais difíceis é não poder tomar banho adequadamente”, diz Lee So Yeon.

“Porque não há água quente. Eles conectam uma mangueira a um riacho nas montanhas e é de lá que a água sai diretamente, às vezes com sapos e cobras”.

Fome que devastou a Coreia do Norte nos anos 90 levou muitas mulheres às forças armadas, em busca de melhores condições de vida

Foto: Reuters / BBCBrasil.com
Motivação

Filha de um professor universitário, So Yeon, agora com 41 anos, cresceu no norte do país. Muitos homens de sua família haviam sido soldados, e, quando a fome devastou a Coreia do Norte nos anos 90, ela voluntariou-se – movida pelo pensamento de ter uma refeição garantida por dia. Milhares de outras jovens mulheres fizeram o mesmo.

“A fome resultou em um período particularmente vulnerável para as mulheres na Coreia do Norte”, diz Jieun Baek, autor de North Korea’s Hidden Revolution (A Revolução escondida da Coreia do Norte, em tradução livre). “Mais mulheres tiveram que ingressar na força de trabalho e mais mulheres ficaram sujeitas a maus-tratos, especialmente a assédio e violência sexual”.

Juliette Morillot e Jieun Baek dizem que o depoimento de Lee So Yeon’s está de acordo com outros relatos que ouviram, mas alertam que desertores – aqueles que abandonam o serviço militar sem autorização – têm de ser tratados com cautela.

“Há uma alta demanda por informações da Coreia do Norte”, diz Baek. “Isso é quase incentivar as pessoas a contarem histórias exageradas à mídia, especialmente se são pagas para isso. Muitos desertores que não querem estar na mídia são muito críticos dos ‘desertores de carreira’. Vale a pena ter isso em mente”.

Informação de fontes oficiais da Coreia do Norte, por outro lado, é passível de ser pura propaganda.

Lee So Yeon não foi paga pela entrevista que concedeu à BBC .

No início, movida por um sentimento de patriotismo e esforço coletivo, ela, então com 17 anos, aproveitou a vida no Exército. Ela ficou impressionada com um secador de cabelo que recebeu, embora a eletricidade irregular significasse que usaria pouco o acessório.
Treinamento duro e alimentação reduzida causavam impacto

A rotina diária de homens e mulheres era aproximadamente parecida. Mulheres tendiam a ter, no entanto, um regime de treinos físicos ligeiramente menor – e eram obrigadas a realizar tarefas diárias como limpar e cozinhar, o que soldados homens eram dispensados de fazer.

“A Coreia do Norte é uma tradicional sociedade dominada por homens e tradicionais papeis de gênero permanecem”, diz Juliette Morillot, autora de North Korea in 100 questions (Coreia do Norte em 100 perguntas), publicado em francês.

O treinamento duro e rações alimentares muito reduzidas cobraram seu preço nos corpos de Lee So Yeon e de suas colegas recrutas.

“Depois de seis meses a um ano de serviço, não menstruávamos mais devido à desnutrição e ao ambiente estressante”, diz ela.

“As mulheres soldado diziam estar felizes por não estarem menstruando. Elas afirmavam que estavam felizes porque a situação era tão ruim que se também menstruassem teria sido pior”.
Quem são os desertores?

So Yeon diz que o Exército falhava no fornecimento de absorventes, e que ela e outras colegas frequentemente tinham como única escolha reutilizá-los.

“As mulheres até hoje usam o tradicional algodão branco”, diz Juliette Morillot. “Eles precisam ser lavados todas as noites quando estão fora da vista dos homens, então as mulheres levantam-se cedo e lavam”.

Recém-chegada de uma visita de campo onde falou com várias mulheres soldado, Morillot confirma que elas muitas vezes sentem falta de menstruar.

“Uma das garotas com quem falei, que tinha 20 anos, me disse que treinou tanto que teve a menstruação interrompida por dois anos”, contou ela.

Embora Lee So Yeon tenha se juntado ao Exército voluntariamente, em 2015 foi anunciado que todas as mulheres na Coreia do Norte devem prestar sete anos de serviços militares a partir dos 18 anos de idade.

Governo tem estimulado a distribuição de produtos de “marcas premium” para soldados, mas condições de vida no serviço militar continuam difíceis

Foto: Reuters / BBCBrasil.com
Governo

Ao mesmo tempo, o governo da Coreia do Norte deu um passo incomum ao dizer que distribuiria uma marca sanitária premium, chamada Daedong, na maioria das unidades femininas.

“Pode ter sido uma maneira de se redimir pelas condições do passado, de corrigir em excesso este fenômeno bem conhecido de que as condições para as mulheres costumavam ser ruins”, diz Jieun Baek. “Pode ter sido uma maneira de melhorar o ânimo e fazer com que mais mulheres pensem: Uau, nossas necessidades serão atendidas”.

A marca de cosméticos premium Pyongyang Products também foi recentemente distribuída para várias unidades femininas de aviação, seguindo uma chamada de Kim Jong-un em 2016 para produtos de beleza norte-coreanos competirem com marcas globais como Lancome, Chanel e Christian Dior.

Apesar disso, as mulheres soldados baseadas em cidades do interior nem sempre têm acesso a banheiros privados. Algumas disseram a Morillot que muitas vezes têm que fazer suas necessidades na frente dos homens, tornando-se especialmente vulneráveis.
O serviço militar na Coreia do Norte

O abuso sexual, dizem Baek and Morillot, é frequente.

Morillot diz que quando abordou a questão de estupros no Exército com mulheres soldado “a maioria disse que acontece com outras”. Nenhuma admitiu ter passado por esse tipo de experiência.

Lee So Yeon também diz que não foi estuprada durante sua temporada no serviço militar, entre 1992 e 2001, mas que muitas de suas companheiras foram.

“O comandante ficava em seu quarto, na unidade, após o serviço, e violava as mulheres sob seu comando. Isso aconteceria repetidamente sem um fim”.

O Exército da Coreia do Norte diz que leva a sério o abuso sexual, com pena de prisão de até sete anos para homens culpados por estupro.

“Mas na maioria das vezes ninguém está disposto a testemunhar. Então os homens geralmente ficam impunes”, diz Juliette Morillot..
Silêncio

Ela acrescenta que o silêncio sobre abuso sexual no Exército está enraizado nas “atitudes patriarcais da sociedade norte-coreana” – as mesmas atitudes que garantem que as mulheres no Exército façam a maioria dos serviços domésticos.

As mulheres de origens pobres recrutadas para brigadas de construção, e alojadas em pequenos barracões ou cabanas informais, são especialmente inseguras, diz ela.

“A violência doméstica ainda é amplamente aceita e não denunciada, então no Exército ocorre a mesma coisa. Mas eu realmente deveria enfatizar o fato de existir o mesmo tipo de cultura (do assédio) no exército sul-coreano”.

Lee So Yeon, que serviu como sargento em uma unidade de sinalização perto da fronteira sul-coreana, finalmente deixou o exército aos 28 anos. Ela ficou aliviada por ter a chance de passar mais tempo com sua família, mas também sentiu que não estava preparada para a vida fora do Exército e lutou com dificuldades financeiras.

Em 2008 ela decidiu fugir para a Coréia do Sul.

Na primeira tentativa, ela foi pega na fronteira com a China e enviada para um campo de detenção por um ano.

Em sua segunda tentativa, pouco depois de sair da prisão, ela nadou o rio Tumen e atravessou a China. Lá, na fronteira, ela se encontrou com um agente que providenciou para que passasse da China para a Coréia do Sul.

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