RADIO WEB JUAZEIRO : CARRO DE MAGUILA ´ATACADO À BALA

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

CARRO DE MAGUILA ´ATACADO À BALA

Atacado a tiros, Maguila queria encarar bandidos no ringue
ARQUIVO VIVO

Maguila queria ficar cara a cara com os bandidos
Folhapress/Folhapress - 1985

Por Renato Lombardi

Acompanhei a carreira do Adilson Maguila pela TV. Nos corredores da Band cruzamos várias vezes quando ele aparecia para entrevistas no rádio ou nos programas de esportes do canal. Afinal quem o lançara fora o Luciano do Vale, que comandava a equipe esportiva da emissora e Maguila era grato. Eu achava engraçado quando ele, após uma vitória, nas entrevistas agradecia a todos e, principalmente, ao dono de um açougue que colaborava com a carne para que ele ficasse cada dia mais forte.

— Sou agradecido, dizia. Me ajudam e eu agradeço.

Maguila era tosco, falava mal, mas tinha a franqueza de dizer o que vinha a sua cabeça sem se importar se atropelava o português, se colidia com a concordância. Foram anos de encontros mas nenhuma conversa. Jamais tínhamos trocado palavras até o dia em que ele e os dois filhos do primeiro casamento foram atacados a tiros na rodovia dos Trabalhadores perto do aeroporto internacional de Guarulhos.

Foi numa manhã. Maguila e os filhos estavam num carro se deslocando de Guarulhos para a capital quando homens que estavam num outro automóvel começaram a atirar. A lataria do carro do lutador foi atingida, Eles pararam no acostamento e um carro da polícia rodoviária na outra pista colocou os homens que atiravam em fuga. O lutador e os filhos não souberam dizer o motivo dos tiros. Não se sabia se fora uma tentativa de assalto ou vingança contra um deles.

Fui cobrir o caso para o jornal em que eu trabalhava. Na delegacia de polícia o lutador estava inconformado.


— Covardes. Queria ver se viessem no braço! Atiraram para matar! Mas se um dia pegar um deles não vai sobrar osso para contar a história, prometia.

Irritado, nervoso, suado, Maguila não dava conta do número de entrevistas. Os jornalistas chegavam aos poucos e ele repetia que se os pegasse no braço ia “encher de porrada” e mostrava a mão fechada. Os filhos estavam assustados. O delegado queria saber se houvera alguma discussão no trânsito, se alguém tinha recebido alguma ameaça de morte, se andavam paquerando mulher casada ou a namorada de algum conhecido. Nada. Chegou um momento em que Maguila pediu para reunir todos os jornalistas. Queria fazer um depoimento em conjunto. Gravadores e câmeras ligadas e ele soltou o vozeirão.

— Estou desafiando estes vagabundos para uma briga limpa comigo dentro de um ringue. Eram quatro. Podem vir os quatro de uma vez. Podem vir de pau, corrente, menos arma de fogo. Encaro todos. Vou dar "mutcha" porrada. E faço questão da imprensa acompanhar. O que fizeram foi covardia. No braço ninguém vem. Só na bala.

Maguila nunca teve resposta. O caso acabou arquivado pela polícia que registrara como possível tentativa de homicídio ou de assalto. Não havia câmeras espalhadas pela rodovia e ruas próximas. Nem todos tinham celular para que motoristas de outros carros gravassem. O tempo correu. Um dia encontrei Maguila na porta da Record TV.

De terno e gravata, acompanhado da mulher, uma advogada, ensaiou até um palavreado bem diferente daquele que estávamos acostumados. Perguntei sobre o caso dos ladrões. Ele nem lembrou. Estava começando a esquecer as coisas, me disse a mulher. Algum tempo depois soube que ele estava com Alzheimer. Ficou internado um bom tempo, mas o diagnóstico foi errado. Não era Alzheimer. Com a reavaliação, o diagnóstico definitivo foi de Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), conhecida como demência pugilística, doença neurodegenerativa progressiva que causa declínio cognitivo, alterações de comportamento e problemas de memória através de destruição dos neurônios, ocasionada por repetitivos golpes na cabeça.

José Adilson Rodrigues dos Santos nasceu em Aracaju em junho de 1958 recebeu o apelido de Maguila por semelhança ao porte físico do personagem Magilla Gorilla, do desenho animado da Hanna-Barbera. Tornou-se o primeiro brasileiro campeão mundial dos pesos-pesados em agosto de 1995. Tinha 37 anos. Derrotou por pontos o inglês Johnny Nelson. O título era da Federação Mundial de Boxe (WBF). Encerrou a carreira profissional em fevereiro de 2000, após derrota por nocaute para Daniel Frank. Entre as suas derrotas mais importantes está a luta com George Foreman, em 1990. E um ano antes também fora derrotado pelo então aspirante ao título Evander Holyfield. Ganhou também lutas expressivas contra James Smith, James Stillis e o argentino Daniel Falconi. Seus principais títulos: campeão brasileiro, sul-americano, latino-americano, pentacampeão continental, campeão das Américas e campeão mundial pela Federação Mundial de Boxe.

Maguila vive com a mulher, que é advogada, e continua seu tratamento em casa.

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