RADIO WEB JUAZEIRO : A ADVOGADA MAIS QUERIDA DO BRASIL
terça-feira, 19 de junho de 2018

A ADVOGADA MAIS QUERIDA DO BRASIL

Sabe quem é o advogado mais admirado pelos advogados do Brasil?

Josie Jardim, diretora jurídica da Amazon no Brasil
Imagem: Carine Wallauer/Universa

Sandra Zimmermann


Muito provavelmente você não sabe.

E, se chutou um nome, é mais provável ainda que tenha errado.

Isso porque não se trata de um advogado. Mas de uma advogada.

Josie Jardim, diretora jurídica da Amazon, foi eleita há poucas horas a executiva mais admirada do mundo corporativo em uma votação da qual participaram quase 600 diretores jurídicos, da maioria das capitais brasileiras.

As informações constam da 11ª edição de Executivos Jurídicos e Financeiros, que acaba de ser lançada pela Análise Editorial (*), empresa jornalística dedicada a publicações especializadas. A radiografia do setor jurídico empresarial, feita desde 2008, mostra como a mulher vem ocupando espaço nessa área, ainda bastante masculina.

“Tive treinamento testosterônico. Cresci entre cuecas no varal”, diverte-se Josie, quinta e única filha de quatro irmãos. "Minha mãe não sabia, mas ela sempre foi uma feminista. E meu pai também. Quando eu falava que queria fazer alguma coisa, ele dizia: ‘então vai lá e faz’”. Aos 17 anos, Josie cavou um intercâmbio nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, o pragmatismo a guiou. Entre a terra natal, Sorocaba, e a capital, ficou com a cidade grande; entre o jornalismo e o direito, escolheu o segundo, porque "podia render mais dinheiro".

Esta é a quarta vez consecutiva que Josie encabeça a lista dos executivos mais admirados por seus próprios pares. Do ranking, que traz 44 nomes, 17 são mulheres. A lista traz quatro executivas entre os 10 primeiros lugares. Na terceira colocação, aparece outra mulher poderosa, Cláudia Politanski, vice-presidente jurídica, relações institucionais e pessoas do Itaú Unibanco Holding. 
"Meu jeito, de cabelos curtos, sem salto alto e desbocada, me favoreceu"

As duas executivas têm perfis um tanto diferentes da maioria dos chefes de grandes escritórios brasileiros. Nesses ambientes, quem comanda o time jurídico é um homem branco, de 45 anos, graduado em direito e de família com pais ou avós que tiveram formação universitária. As mulheres representam 39% dos cargos de liderança e 64% na composição das equipes. Em 2008, ano do primeiro levantamento feito pela Análise Editorial, elas eram 31% no comando. Mas quando Josie e Cláudia começaram, no início dos anos 90, mal se via uma mulher nesse cenário.

Sem ter feito estágio e tendo tido que trabalhar para pagar a faculdade, Josie já estava conformada que seguiria a carreira no funcionalismo público quando foi chamada por uma empresa. “Eles precisavam de alguém com diploma de advogada e que falasse inglês. Era a minha chance”. De lá para cá, construiu uma carreira sólida em grandes empresas. Sofreu preconceito de gênero? “Se aconteceu, não percebi. Hoje acho que o meu jeito menino - minha mãe garante que sou assim desde os quatro anos - com cabelos curtos, sem salto alto e desbocada, me favoreceu. Nunca fui o tipo de mulher com aquele padrão feminino que deixa os homens nervosos”.

A executiva diz que seu pior defeito é a impaciência. Que adora ler, assistir ao Santos jogar e relaxar em sua casa, na Ilhabela. Ela teve o primeiro emprego com menos de 18 anos e hoje, aos 51 anos, cumpre jornadas de trabalho de até 12 horas por dia.

Segundo projeções do setor jurídico, em 2020 o número de advogadas será superior ao de advogados (dá para acompanhar o placar no Quadro de Advogados da OAB, que atualiza os números diariamente), mas vantagem numérica não significa equidade de condições.

Josie aposta em uma estratégia de trabalho no micro e no macro para acelerar o processo de equidade. Em 2009, ela criou o “Jurídico de Saias”, um portal que hoje reúne mais de 1,4 mil advogadas que atuam em departamentos jurídicos de empresas, associações e entidades sem fins lucrativos. O objetivo é fortalecer o protagonismo e desenvolver novas lideranças femininas no meio jurídico brasileiro.

Contratar um escritório de advocacia que tenha mulheres nos seus quadros de gestão ou mulheres associadas, é uma das táticas combinadas no grupo que parte para mais um ataque. “Agora começamos um movimento de mulheres na OAB pra garantir 50% delas na camada de gestão. Queremos mulheres no comitê sindical e no financeiro”.
"Percebia as situações desconfortáveis por ser mulher. Queria trabalhar e deixava pra lá" 

Imagem: Carine Wallauer/Universa


As mudanças no ambiente jurídico, no que diz respeito às mulheres, vieram na paralela com o que elas próprias perfomaram, especialmente, nos cargos de chefia. Claudia conta, por exemplo, que quando começou a estagiar no Unibanco, aos 20 anos, “até percebia as situações desconfortáveis por ser mulher, mas achava normal. Eu queria trabalhar e deixava pra lá. A verdade, é que a vida inteira eu fiz vista grossa”.

Olhando para trás, ela analisa outros gaps. “Vejo que uma série de características mais sensíveis que eu tinha acabaram sendo minimizadas. Você vai se transformando em um profissional superexigente, com muito menos compaixão na forma de se colocar e ir pro embate”.

Cláudia também relembra o jeitão machista que um antigo chefe tratou sua primeira gravidez.

Era o ano de 1992, e a lei que estabelecia a licença maternidade de quatro meses havia sido aprovada em 88. Ela ouviu do chefe: “Então você vai ser a primeira mulher de licença que eu já tive. Vamos ver como é que vai ser”. Pior, na avaliação de Claudia, do que o que o cara disse, foi sua própria reação: “Falei pra mim mesma: ‘vamos ver? Vamos ver nada! Você não vai nem notar que eu tenho filho pra cuidar’. E minha carreira foi assim: tive todas as promoções e oportunidades e acabei virando o antiexemplo. Não poderia ter sido a esse custo, a esse nível de sacrifício", diz ela. “O momento do casamento e da maternidade é especialmente delicado e, muitas vezes, passa despercebido pela empresa”.

Claudia tem 48 anos e também cumpre jornadas de até 12 horas por dia. Pra relaxar, curte ler, andar de bicicleta e ficar no sítio com o marido e as duas filhas.

O levantamento da Análise mostra que entre os diretores jurídicos pesquisados, 62% das mulheres ganham até R$ 30 mil por mês. Mas quando a faixa aponta para mais de R$ 30 mil, os homens são 51% e as executivas mulheres 38%. 

“As mulheres têm dificuldade de negociar salário e pedir aumento; e quando são chamadas a assumir um desafio, normalmente olham para o que lhes falta e não para o que elas têm a agregar”, diz Cláudia. “E tem outra coisa complicada que é a reprodução do status quo. Na hora da promoção, quem decide é o homem branco, e ele tende a puxar “o cara legal”, completa Josie.

(*) A 11ª. Edição do Anuário Executivos Jurídicos e Financeiros apresenta 2,6 mil executivos no comando de 2 áreas vitais para 1.421 companhias sediadas em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. A publicação traz ainda a lista dos 69 executivos mais admirados por seus próprios pares. Juntas, as empresas movimentaram R$ 4,8 trilhões, equivalente a 73% do PIB nacional em 2017. A pesquisa foi realizada entre janeiro e março de 2018.

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