RADIO WEB JUAZEIRO : SENADO APAGA PUBLICAÇÃO POLÊMICA NO FACEBOOK
quarta-feira, 27 de junho de 2018

SENADO APAGA PUBLICAÇÃO POLÊMICA NO FACEBOOK

Especialistas contestam informação divulgada na rede social de que a droga levaria à morte

POR ANA PAULA BLOWER

Especialistas apontam que proibição dificulta regulamentação e controle de qualidade para uso da cannabis - Fernando Donasci / Agência O Globo

Após provocar polêmica nas redes sociais, o Senado retirou do ar uma publicação no Facebook em que divulgava, citando informações da Polícia Federal, que a maconha pode levar o usuário à morte. Na peça intitulada "Os males causados pela maconha", como parte da Semana Nacional Antidrogas, entre os possíveis efeitos imediatos apontados estavam "dificuldade de pensar", "agressividade" e "morte". Já entre os efeitos do uso continuado, a "morte" aparecia novamente, ao lado de "doenças cardiológicas", "pulmonares" e "câncer".

A publicação já havia sido compartilhada 50 mil vezes. Em muitos dos 21 mil comentários feitos, internautas pediam mais dados sobre os estudos que mostrariam que as pessoas podem morrer por usar maconha. Além disso, muitos ressaltavam o fato de que outros países estão debatendo o assunto com outro foco, como a legalização nos Estados Unidos e no Canadá.

Ao apagar a publicação, o Senado informou que havia buscado apoio em material preparado pela Academia Nacional da Polícia Federal sobre o assunto. Mas, diante da repercussão, optou pela retirada do material das redes sociais.

Para o neurologista Eduardo Faveret, a publicação do Senado no Facebook é o que ele chama de uma “campanha terrorista” que traz empecilhos para a disseminação de informações sobre o uso responsável da cannabis. O médico afirma que o Senado não está qualificado para discutir tais assuntos. Além disso, ele afirma que alguns efeitos apontados na publicação podem ser percebidos em níveis maiores em substâncias comercializadas legalmente, como o álcool e o cigarro.

— Há diversos trabalhos mostrando que a cannabis é muito segura, em termos gerais. É no regime proibicionista que mora o maior risco. Quando não se sabe o que está ingerindo, é uma roleta russa. O Brasil já é campeão de agrotóxicos. Se não tem fiscalização, como no caso da maconha clandestina, pode utilizar cannabis com metais pesados, agrotóxicos, totalmente diferente de quando há um cultivo legalizado — pontua.

Peça publicada na página do Facebook do Senado Federal que foi excluída - Reprodução/ Facebook

Ele aponta que o número de internações psiquiátricas por uso de cannabis são menos frequentes em comparação às de álcool, por exemplo. Faveret lembra estudo do pesquisador e professor Elisaldo Carlini, que mostra que, em um período de cinco anos, houve 10 mil internações por álcool e 200 pelo uso de cannabis. Segundo o médico, poucos artigos falam do aumento de risco de AVC e infarto, além desses serem com uma "população mínima”.

A morte como efeito colateral a curto e longo prazo era um dos aspectos mais comentados entre os intenautas. O pesquisador da Fiocruz Francisco Inacio Bastos afirma que overdose por maconha, sem que haja uso concomitante de outras substâncias, é impossível.

— Temos um sistema de endocanabinóides, produtos similares à maconha que nós mesmos produzimos. Mas não existe receptor para maconha na área do cérebro que causa a depressão respiratória, que leva À morte. Tecnicamente, em termos de neurofisiologia, é impossível a overdose por maconha — explica o pesquisador, que critica a forma generalizada como os efeitos foram tratados no post do Senado.

Segundo um trabalho de especialistas das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (Nasem) que analisou mais de 10 mil pesquisas científicas sobre os efeitos dos derivados da maconha, em relação à ligação entre a cannabis e o câncer, não há evidências substanciais de que fumar maconha possa aumentar o risco de cânceres frequentemente associados ao tabagismo, como no pulmão, cabeça e pescoço. Em relação a alguns tipos de câncer testicular, no entanto, há evidências positivas, mas ainda insuficientes.

'Mais consequências negativas do que positivas no uso'

Arthur Guerra, coordenador da Comissão de Combate às Dependências Químicas da Associação Médica Brasileira, lembra que a maconha é a droga ilícita mais usada no mundo e que, por isso, deve fazer parte do debate da sociedade. Segundo o médico, existem mais consequências negativas do que positivas no uso não medicinal da maconha. Ele ressalta, porém, que há benefícios em situações clínicas, como em pacientes que estão em quimioterapia, que têm dores crônicas ou crises convulsivas.

— Por isso é tipificada como droga ilegal. Existem dificuldades imediatas e outras de longo prazo, de uso continuado. Não é que todas as pessoas terão esses efeitos, o que não signifca que seja uma droga sem consequências negativas — afirma Guerra.

Guerra corrobora que o uso isolado de maconha não leva diretamente a morte. De acordo com o médico, segundo a literatura científica disponível, não estão descritos casos de mortes apenas pelo uso da maconha.

— Entretanto, indiretamente, a maconha pode causar grande devastação na saúde de um usuário, seja pelo grau de dependência, pelas complicações oriundas do seu uso agudo e mesmo como porta de entrada de outras drogas. Essas situações, no limite, podem ocasionar mortes — conclui Guerra.

Uma publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) intitulada "Os efeitos na saúde e sociais do uso não medicinal de cânabis", de 2016, aponta efeitos semelhantes aos citados pela publicação do Senado, mas reforça que estes variam de acordo com a quantidade ingerida e o tempo de uso, se há o uso de outras drogas associadas e a predisposição do usário.

Os efeitos a curto prazo para a saúde, aponta o relatório, são: "distúrbio no nível de consciência, de cognição, percepção, afetar o comportamento e outras funções e respostas psicológicas". A magnitude desses efeitos, informa o documento, vai depender da dose utilizada, da via de administração, "do cenário e da mentalidade do usuário". O documento cita ainda psicoses, comportamento suicida e efeitos adversos à saúde física, como acidente vascular encefálico ou síndrome coronariana aguda.

A longo prazo, os efeitos são aqueles resultantes de um uso prolongado da cannabis, especialmente uso diário. São eles: depressão, ansiedade e comportamento suicida, além de efeitos físicos, como doença de obstrução pulmonar crônica e respiratória e outros cânceres.

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