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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

PORNOGRAFIA NA REDE

20 dias no 'Grupo da Pelada': G1 conta como é serviço de pornô e erotismo por WhatsApp e Telegram. Vai pegar?

Projeto do canal Sexy Hot serve para distribuir vídeos curtos e fotos aos integrantes.

Por Cauê Muraro, G1
Conteúdo do 'Grupo da Pelada', criado pelo canal Sexy Hot para divulgar vídeos curtos e fotos pornôs — Foto: Cauê Fabiano/G1

Em geral, são totalmente depilados – tanto elas quanto eles. Via de regra, as relações são heterossexuais (há momentos estrelados por lésbicas, mas nunca ação gay entre dois homens). O carro serve de espaço alternativo em termos de locação (mas tem momentos na sauna, em mesa de cassino, na pia do banheiro e até na cama).

Entre as atrizes, existe uma predileção por manter sapato de salto durante o ato (mas uma calçou tênis brancos esportivos). Um rapaz achou certo gravar sem camisinha mas de camisa polo. Das 46 mulheres mostradas, 43 são brancas, duas são orientais e uma é negra. Dos 31 homens, 29 são brancos; e dois, negros.

Esse foi o saldo dos 20 dias em que G1 participou de um grupo de WhatsApp chamado Grupo da Pelada. O serviço estreou no final de agosto e é cria do Sexy Hot, principal canal de filmes pornôs do Brasil.
Disponível também no Telegram, o projeto compartilha de graça vídeos curtos e fotos. Tudo oficial. Só pode entrar quem diz ser maior de idade. De acordo com os criadores, a iniciativa é para ajudar a combater o consumo ilegal, através de conteúdos legais e autorizados.

Por ali, beijo na boca é raro, mas acontece. A posição mais comum é aquela em que a mulher está sobre o homem e de costas para ele. Se não há preservativo em cena, pode apostar, as falas virão em inglês (“oh yeah!”), por ser uma produção estrangeira.

Duas indicadas ao Prêmio Sexy Hot, o Oscar pornô brasileiro, aproveitaram para fazer “horário eleitoral”, pedindo votos (gemendo) – uma delas ressaltou, inclusive, que é mãe.

Para participar do Grupo da Pelada, o usuário deve acessar o site. No caso do WhatsApp, os números de telefone de todos os participantes do grupo ficam visíveis para os demais, mas apenas os administradores é que podem enviar materiais e mensagens. Outros não podem sequer comentar. Vale o mesmo para o Telegram.

Como o WhatsApp consegue comportar no máximo 256 números de telefone por lista, estão sendo criadas diversas versões do Grupo da Pelada, conforme o limite de cada uma vai sendo atingido. Já há mais de 50 delas. O G1 entrou no Grupo da Pelada #31. Já no Telegram, a opção "Supergrupo" permite abrigar até 100 mil membros.

A descrição do Grupo da Pelada diz o seguinte:

"O melhor da putaria, legal e grátis, com o selo de qualidade Sexy Hot. Aqui não tem #Novinha, #RevengePorn nem #CaiuNaNet. Aqui a putaria é profissional MESMO. As regras são simples: Maiores de 18 anos; Só o Sexy Hot posta conteúdo; Tá liberado compartilhar a putaria do grupo com outros amigos".

O vídeo promocional descreve que o serviço é "um grupo sobre anatomia, sobre relacionamento. Tudo isso, claro, com muita gozação".

Estudando o pornô

A ideia do Grupo da Pelada nasceu de um estudo encomendado pelo Sexy Hot para traçar o perfil do público consumidor de pornografia.

“A pesquisa mostrou que tem um perfil com demanda por vídeos curtos e acessados rapidamente. Obviamente, as pessoas recebem vídeo no WhatsApp a todo momento, nem sempre de forma legal, e então nós queremos oferecer isso”, explica Mauricio Paletta, diretor do grupo Playboy do Brasil, dono do Sexy Hot.

“A gente se apropriou do termo ‘grupo da pelada’, que é uma gíria legal, uma brincadeira”, acrescenta o executivo, sobre a referência àquelas listas de amigos criadas (em tese) para discutir o futebol semanal, mas que acabam se prestando a assuntos extracampo.

A disponibilização, no começo de julho, do recurso que restringe a administradores o envio de mensagens para grupos facilitou as coisas para o Grupo da Pelada entrar em atividade.

Em julho de 2017, o WhatsApp anunciou ter chegado à marca de 1 bilhão de usuários ativos por dia no mundo. No Brasil, são cerca de 120 milhões de usuários. É o mais popular dos aplicativos tanto para Android quanto para iPhone. Já o Telegram anunciou, em março, ter chegado a 200 milhões de usuários mensais.

Veja os principais registros do G1 no Grupo da Pelada, do Sexy Hot:
Imagem do vídeo de divulgação do serviço 'Grupo da Pelada', criado pelo canal pornô Sexy Hot para divulgar vídeos e fotos de graça pelo WhatsApp e pelo Telegram — Foto: Divulgação/Sexy Hot

Depilação

Entro no Grupo da Pelada #31 por volta do meio-dia e meia de 27 de agosto, dia do lançamento do serviço. O primeiro conteúdo demora um pouco e chega às 14h52, quando somos cerca de 250 participantes.

É um vídeo de 38 segundos: duas atrizes e dois atores, os quatro interagindo entre si. Um dos homens parece confuso quanto à utilização da boca – não sabe se fala palavrões ou outra coisa. Todos estão depilados, inclusive os homens, clichê no segmento.

Às 20h17, chega o segundo e último conteúdo deste dia de estreia. É outro vídeo, desta vez precedido da mensagem: “Tá quase na hora de relaxar! A Lola tá passando pra te deixar ainda com mais vontade de dar logo a hora de ir embora”.

Inicialmente, penso que talvez Lola não fosse o melhor exemplo, já que estava sozinha durante toda a cena. Mas talvez fosse justamente esta a ideia: gerar empatia com o público. Demoro a perceber a mensagem subliminar no trecho “mais vontade de dar logo a hora de ir embora”.

Duplo (ou triplo) sentido

O Grupo da Pelada quer ser engraçadão: tem trocadilho ou piada em praticamente 100% das mensagens que acompanham vídeos e fotos. Exemplo: “Quem também queria estar nessa cena do filme ‘Encontro com a gostosa’ da DreadHot, sacode a mão”.

Percebeu o “sacode a mão”? Fico pensando que o nosso administrador passa algumas horas de seu dia elaborando gracinhas de duplo (ou triplo) sentido para satisfazer a audiência (não é tão difícil). Neste particular, os emoticons de laranja (a fruta), de mão fechada, de boca com saliva, de fogo e de berinjela têm aplicação recorrente. Às vezes, rolam coraçõeszinhos, de repente para incentivar apego sentimental da parte dos participantes.

Na terça-feira, 11 de setembro, teve amistoso Brasil x El Salvador. Nosso administrador ou administradora de novo mostrou senso de oportunidade, ao enviar um vídeo acompanhado desta mensagem: “Dia de jogo da Seleção merece começar com um ménage com Elisa Sanches de centroavante”. O texto veio acompanhado de dois corações, um verde e um amarelo, além emoticons de berinjela e gotinhas.

O linguajar é bem estilo “redes sociais”: às sextas-feiras, por exemplo, as mensagens vêm acompanhadas de dizeres como “sextou!” e “dia de maldade”.

O que chega no grupo

Nos 20 dias, vemos:

31 vídeos, com cerca de 30 segundos em média. São trechinhos de produções que estão na grade do Sexy Hot, entre filmes brasileiros e estrangeiros.
2 vídeos de “propaganda eleitoral”. São as atrizes Emme White e Dread Hot, concorrentes ao Prêmio Sexy Hot, pedindo votos.
26 fotos. Algumas são frames de algum filme pornô, mas outras são posadas mesmo, com os modelos/atores em posições sexuais. Todas elas têm um homem + uma mulher.
1 mensagem de áudio, em 6 de setembro, o dia do sexo. A voz é de Emme White, que sensualiza. “Que tal um 69, hein?”, pergunta ela. Em seguida, fala àqueles que de repente não conseguirão terminar esta quinta-feira fazendo jus ao real significado prático da data. “Se não tiver nada disso, não tem problema, escolhe um filmezinho aí no Sexy Hot. É para isso que nós estamos aqui, né? Para inspirar vocês. Tem sempre aquele ‘cinco contra um’ que nunca falha, hum?”.
Extra: durante o período em que estive no Grupo da Pelada #31, recebi por duas vezes de um número que não está em minha lista de contatos, a propaganda de uma pizzaria que oferece as coberturas tradicionais a R$ 35,90.

Conteúdo

O conteúdo no Grupo da Pelada diz uma coisa ou duas (na verdade, tudo, se for ver...) sobre o público a que ele se destina – homens heterossexuais. É o reflexo da conclusão da pesquisa que aponta: 76% dos consumidores de pornografia no Brasil são homens e 26% são para mulheres.

Não por acaso, maior parte do material compartilhado é sexo a dois: um homem + uma mulher: 19 dos 31 vídeos (além de todas as fotos) compartilhados nesses 20 dias seguem esse padrão. A variação “2 homens + 2 mulheres” aconteceu uma vez. A modalidade “1 homem + 2 mulheres” foi vista duas vezes.

Sexo gay entre dois homens, nenhuma vez. Entre mulheres, pode, e foi o caso de caso de três dos vídeos – além disso, um quarto mostrou quatro mulheres em cena. Outros três vídeos foram estrelados por uma mulher em momento solo cada um, sendo o último deles meio poético, com música eletrônica e imagens desfocando.

“Não tem sexo gay entre homens porque o grupo acompanha a marca do Sexy Hot, que é um canal hétero e com apenas algumas cenas homo femininas”, explicaria depois Paletta, da Playboy do Brasil.

A se acreditar nas fotos que os participantes do Grupo da Pelada #31 usam como perfil, todo mundo aqui é homem. Sobre a eventual presença de mulheres nos outros grupos, Paletta afirma: “Tem poucas que se identificam como mulheres – mas tem. Você ir no WhatsApp e restringir o seu perfil, mas se a pessoa não teve o cuidado de restringir, está lá a fotinho. E vimos umas fotos femininas.”

Horário comercial

O Grupo da Pelada tem seu pico de atividade entre as 10h e as 18h de cada dia. Coincidência? Nada. O horário comercial é calculado, já que neste período os participantes (supostamente) estão no trabalho e longe do lar. Fácil reparar, ainda, que a cada fim de tarde aumenta o número de participantes que deixam a lista: deve ser porque está na hora de voltar para casa.

Não por acaso, também, aos sábados e aos domingos não chega nada no grupo, assim como no feriado de 7 de setembro. Melhor evitar situações de risco.

Outro indicativo do perfil de participantes: as mulheres usualmente estão em primeiro plano e, sempre que possível, aparecem de frente, corpo inteiro, de costas para o parceiro de cena. Às vezes, o rosto dos atores mal aparece, tudo leva a crer que seja estratégia.

É curioso como nosso administrador age tanto como curador quanto como uma espécie de figura sábia e que desafia seus discípulos. Em uma das mensagens, diz: “Aposto que você também queria ser o Loupan, nesta tarde de quarta, se deliciando na cena do filme ‘Rotina’”. O ator, de repente, vira uma espécie de modelo momentâneo. Nada contra, ele é evidentemente alguém comprometido com seu papel. Nesta cena específica, realmente seu desempenho de atuação textual é exigido, quando lança à parceira uma questão admiravelmente improvável: “Você entendeu por que eu casei com você?”.

As atrizes

No mercado de filmes pornôs, as atrizes ganham mais do que os atores, ao contrário do que acontece no mercado de filmes tradicionais. Um dos motivos: são elas o principal atrativo para o público-alvo.

No Grupo da Pelada #31, os nomes das mulheres são citados comumente: Emme White, Angel Lima, Eliza Sanches, Alice Alcântara, Alessandra Maia, Pamela Pantera, DreadHot e Jessica Channel (a única negra). Estrelam filmes de nomes quase óbvios (“O encontro”, “Invocação do prazer”, “Sexo gourmet”, “Strip”, “Comendo a loira”, “Provocou direitinho antes da transa”) e produções de títulos mondernos/inusitados (“Manda nudes”, “Crush” e “All in: O jogo perfeito”).

Das 46 que passam pelo grupo nesses dias, são 25 de cabelos pretos, 13 de cabelos loiros (tingidos ou não, sendo uma com babyliss estilo “acabei-de-sair-do-salão), 4 de cabelos ruivos/vermelhos (idem) e uma de cabelo azul. Tem também as duas orientais e a única negra, Jessica Channel.

Os típicos físicos são muito variados, muitas têm tatuagens e algumas usam óculos como diferencial.

Perfil dos atores (e um ‘hipster’)

Os atores que surgem no Grupo da Pelada não têm nome, à exceção do Loupan ali de cima. Tem uma variação grande de tipos físicos, alguns muito em forma, um ou dois com barriguinha e um único sujeito bem hipster, com cabelos compridos, barba, brinco e tatuagem na panturrilha.

Todos os homens que usam preservativo nas cenas estão em filmes brasileiros. Aparentemente, nas produções estrangeiras isso não é exigido. Por algum motivo, o nível de debandada os participantes é menor após a chegada dos trechos de vídeos gringos.

Despedida

Antes de me despedir do Grupo da Pelada #31, passo os olhos uma última vez pelos meus colegas de grupo. Continuamos sem nenhum participante que se identifique como mulher. Alguns usam como imagem retratos com integrantes da família. Outros preferem expor mensagens: “Se estou feliz, sim muito”; “caí 07 vezes levantei 08 !!!”; “seja feliz, não importa como”; e “Corra o risco. Se der certo, felicidades”.

O último conteúdo que recebo é uma foto com uma mulher em destaque. E uma mensagem final: “Pra fechar a semana, um ensinamento do nosso já saudoso poeta da sacanagem: - Um boquete e um copo d’água não se nega a ninguém. (CATRA, Mr)”. Era a homenagem ao funkeiro morto dias antes, aos 49 anos. Conhecido pelo desprendimento para falar de sexo, Catra deixou três esposas e 32 filhos.

Uma outra frase famosa do cantor talvez fosse mais inspiradora, embora menos explícita: "Se organizar direito, todo mundo transa". Ou, como é o caso aqui, vê os outros fazendo.

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