RADIO WEB JUAZEIRO : Baleado diz que foi atingido por sniper que atirou da Cidade da Polícia: 'Nasci de novo'
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Baleado diz que foi atingido por sniper que atirou da Cidade da Polícia: 'Nasci de novo'

O curativo do ajudante de pedreiro, na entrada do MP do Rio 
Foto: Rafael Soares

Rafael Soares

O ajudante de pedreiro, de 22 anos, havia saído de casa, em Manguinhos, na Zona Norte do Rio, pouco depois das 17h do último dia 29. Sua mulher insistiu para que ele fosse comprar água de coco para o filho, nascido há pouco mais de três meses. Após pedir a bebida numa barraca de frutas próxima a sua casa, na localidade conhecida como Coreia, o jovem conversava com um amigo quando foi atingido por um tiro nas costas. Ontem, ele contou, em depoimento no Ministério Público, que o disparo foi feito por um sniper do alto de uma torre da Cidade da Polícia, um complexo de delegacias vizinho à favela.

— Nasci de novo. Estava conversando com um amigo e me virei para pegar a água de coco na hora em que fui atingido. Se tivesse ficado parado, ia ser atingido de frente. Não tinha tiroteio. A favela estava cheia, tinha muita criança na rua. O tiro veio da Cidade da Polícia. Todas as pessoas que estavam lá viram — contou o ajudante de pedreiro ao EXTRA, após prestar depoimento no Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do MP.

Logo após ser atingido, o jovem foi levado por um mototaxista para a UPA de Manguinhos, de onde foi transferido para o Hospital estadual Getúlio Vargas. A bala entrou pelas costas e saiu pela barriga. O tiro, entretanto, não acertou nenhum órgão vital, e ele foi liberado no mesmo dia.

Rômulo em sua moto Foto: Álbum de família

Cerca de duas horas depois, outro morador foi baleado no mesmo lugar onde o ajudante de pedreiro estava, a localidade conhecida como Coreia. Rômulo Oliveira da Silva, de 37 anos, foi atingido no peito e morreu na mesma UPA. Ele trabalhava como porteiro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Parentes de Rômulo, que também foram ao MP, dão a mesma versão que o ajudante de pedreiro: segundo eles, o porteiro passava no local numa moto em direção a um borracheiro quando foi atingido. O tiro, segundo eles, também veio da torre da Cidade da Polícia, que fica a 250m do local. Procurada pelo EXTRA, a Polícia Civil alegou que não teve acesso aos depoimentos, por isso não ia se manifestar.

Promotoria vai investigar série de casos

Moradores de Manguinhos afirmam que o ajudante de pedreiro e Rômulo não foram as primeiras vítimas de snipers que atiram da torre da Cidade da Polícia em direção à favela: no início da noite do último dia 25, Carlos Eduardo dos Santos Lontra, de 27 anos, foi baleado na barriga na mesma localidade e morreu. Com base nos depoimentos de parentes das vítimas e do ajudante de pedreiro, promotores do Gaesp abriram um procedimento investigativo para apurar os casos em série.

Carlos Eduardo foi morto na última sexta-feira

Segundo parentes de Carlos Eduardo, o jovem trabalhava há mais de três anos numa empresa de reciclagem de extintores de incêndio. Ele estava voltando para casa do trabalho quando foi atingido. Também não havia tiroteio ou operação na favela no momento do crime.

Na tarde do dia 30, moradores de Manguinhos fizeram um protesto em frente à Cidade da Polícia. A manifestação chegou a fechar a Avenida Dom Hélder Câmara por cerca de 20 minutos. Na ocasião, a Polícia Civil alegou que “não autorizou ação de snipers de dentro da Cidade da Polícia”.

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