RADIO WEB JUAZEIRO : Pesquisa por 'mulher negra dando aula' no Google apresenta imagens pornográficas
sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Pesquisa por 'mulher negra dando aula' no Google apresenta imagens pornográficas

por Ailma Teixeira
Imagem: PrintScreen / Google Imagens

Cáren precisava de uma imagem que demonstrasse uma professora no exercício da profissão. Ciente de que os bancos de imagem costumam priorizar pessoas brancas, ela decidiu procurar especificamente por uma mulher negra. Recorreu, então, ao Google, e digitou na busca: “mulher negra dando aula”. O resultado passou longe do esperado – ela encontrou dezenas de imagens pornográficas.

Isso aconteceu com a profissional de Relações Públicas e dona do blog Pittaco na Moda, Cáren Cruz, no início deste mês. Ela conta que após o susto imediato com as imagens, pensou que houvesse uma conotação sexual por conta do termo “dando”. Aí decidiu testar as pesquisas "mulher dando aula" e, claro, "mulher branca dando aula". Em ambos os casos, nada de sexo como resposta. Os principais resultados do Google Imagens são mulheres brancas em sala de aula, aula de dança, de ioga, palestras... Mais abaixo também é possível ver mulheres negras nessa posição.
Imagem: PrintScreen / Google Imagens

Assim em mais uma tentativa de descobrir se o problema era apenas na sua página, Cáren espalhou o fato entre alguns colegas, pedindo que eles repetissem as buscas em seus dispositivos e os resultados não foram diferentes. Inquieta e, ao mesmo tempo, ávida para que isso chegasse até o Google, ela decidiu procurar o Bahia Notícias.

“Eu pensei: ‘como eu vou postar essa informação?’ Queria que eles chegassem a uma solução e pudessem se mobilizar junto comigo porque uma criança numa pesquisa, que tem página monitorada pelos pais, pode passar por isso”, pontua.

Após verificar e constatar os mesmos resultados de Cáren – como as fotos são explícitas, optamos por não reproduzir as imagens –, o BN procurou a assessoria do Google Brasil em busca de esclarecimentos e a empresa relatou que também foi surpreendida. De acordo com eles, ainda não é possível dizer o que ocasiona esse conteúdo sexista e racista, mas uma equipe trabalha para encontrar o problema e corrigi-lo. Além disso, eles reconhecem que o conteúdo não deveria estar explícito, pois pode ser facilmente encontrado por qualquer usuário. O computador usado por Cáren, por exemplo, é bloqueado para pesquisas pornográficas e ainda assim ela viu uma enxurrada de fotos com essa conotação no Google Imagens.

“Quando as pessoas usam a busca, queremos oferecer resultados relevantes para os termos usados nas pesquisas e não temos a intenção de mostrar resultados explícitos para os usuários, a não ser que estejam buscando isso. Claramente, o conjunto de resultados para o termo mencionado não está à altura desse princípio e pedimos desculpas àqueles que se sentiram impactados ou ofendidos”, escreveu a empresa em nota enviada ao portal.

Ainda sem uma solução definitiva a dar, eles ressaltam que estão “investigando o problema”. “Como sempre, vamos buscar uma solução para aprimorar os resultados não somente para este termo, como também para outras pesquisas que possam apresentar desafios semelhantes”, prometem.

Enquanto isso, Cáren torce para que a correção seja feita o mais rápido possível. Como mulher negra que se dedica a combater o racismo em diversos meios, ela cogitou até entrar com uma ação judicial, mas recuou. “É evidente como o preconceito racial e o sexismo aparecem como marcadores discriminatórios para a mulher negra na sociedade. E não há como negar que o estigma da hipersexualização, oriundo de um processo histórico colonial no Brasil, é uma das formas latentes de manutenção da racialização dos sujeitos. A estrutura social programada não inclui a mulher negra na sua intelectualidade, esta perpassa entre gerações, sempre vinculada aos moldes e ao uso discriminatório do seu corpo. E a mídia, assim como as plataformas tecnológicas, reproduzem esse referencial depreciador no que tange à imagem da mulher negra na representação social”, analisa.

A advogada Dandara Pinho explica que, se um processo for iniciado, a responsabilização pela concentração, criação e não-alteração dos algoritmos será discutida. Ela é membro da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia.

OUTRO CASO DE SEXISMO

Esse não é a primeira vez que buscas feitas no Google apresentam resultados sexistas. Só nesta semana, uma matéria publicada pelo Extra apontou que a palavra “professora” era definida informalmente como “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”. Ao pesquisar por “professor”, no entanto, as respostas são “aquele que professa uma crença” e “aquele que ensina”.

Imagem: PrintScreen / Google Imagens

Em resposta ao site, a empresa informou que licencia conteúdos de dicionários parceiros e, portanto, não tem controle editorial sobre as definições fornecidas por eles. Por fim, ressaltou que iria repassar o problema aos responsáveis pelo conteúdo e na manhã desta quinta-feira (24) a definição já não é encontrada.

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