RADIO WEB JUAZEIRO : Retrato falado feito pelo IGP mostra como estaria hoje criança que desapareceu no RS em 1999
terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Retrato falado feito pelo IGP mostra como estaria hoje criança que desapareceu no RS em 1999

DNA foi enviado para comparação em um banco internacional. Menino Bruno foi visto pela última vez quando tinha 9 anos. Suspeitos chegaram a ser presos, mas processo foi arquivado porque prescreveu.

Por Fábio Almeida, RBS TV
IGP fez um retrato falado de como Bruno estaria hoje — 
Foto: Fábio Almeida/RBS TV

O caso do menino Bruno, que desapareceu no Litoral Norte do Rio Grande do Sul em 1999, completou 20 anos em julho sem solução. A família, contudo, não desiste das buscas. Entre as tentativas mais recentes de encontrá-lo, está a coleta da amostra de DNA da mãe do menino, que foi enviada a um banco internacional para comparação.

A pedido da reportagem da RBS TV, o Instituto-Geral de Perícias fez um retrato falado de como ele estaria hoje, com 30 anos de idade.

"Eu ainda acho que vou encontrar ele vivo. Não consigo nem encontrar o Bruno, assim, morto ou de outro jeito. Não sei... Meu coração me diz que eu vou encontrar ele vivo, sim", confia a mãe, Devercina França Leal da Silva, que recebeu o retrato falado do IGP.
A imagem foi produzida pelos fotógrafos de criminalística Cláudia Azevedo e João Carlos. Eles explicaram que separaram as características mais fortes das duas famílias, com base em uma foto do menino.
Retrato falado feito pelo Instituto-Geral de Perícias — 
Foto: Divulgação/IGP-RS


Esperança renovada

A amostra de DNA de Devercinda foi colhida em outubro, e o material genético, enviado para o banco internacional. Na comparação com os dados disponíveis, não houve nenhuma confirmação.

No Brasil também existem bancos, mas para exames criminais. Nesses bancos não houve a confirmação na comparação com os dados de desaparecidos ou de restos mortais que já tiveram DNA coletados.

"O banco de desaparecidos, tanto o banco do estado do Rio Grande do Sul quanto o banco nacional de perfis genéticos, ele é um banco que já existe desde 2011. Ele permite a inserção de vestígios criminais, e a partir de 2012 permitiu a inserção de condenados por crimes hediondos ou de grave violência, e ele também permite a inserção de familiares de pessoas desaparecidas e de restos mortais que não tiveram nenhuma identificação nas perícias estaduais de maneira a que se possa fazer o confronto entre esses desaparecidos e essas famílias que estão buscando seus entes queridos", explica o perito criminal chefe da Divisão de Genética Forense do RS, Gustavo Lucena Kortmann.

Foi procurando em redes sociais na internet que Devercinda encontrou um grupo que ajuda pessoas a encontrar familiares desaparecidos. Ela fez contato, contou sua história e recebeu um kit para coletar os dados biológicos para o banco.

Os grupos são fechados e com integrantes espalhados pelo mundo. Eles preferem o anonimato, já que ajudam a desvendar casos de paternidade e até tráfico internacional de crianças.

Desaparecimento

Bruno desapareceu no dia 10 de julho de 1999, em Imbé. "Era um sábado de manhã. Ele pediu para ir no serviço do pai dele, que era em Atlântida Sul, aqui pertinho, não dá dez minutos. De bicicleta. E eu deixei ele ir. Só que nesse dia, ele saiu por volta de 8h30, 9h. Aí, quando meu marido chegou em casa, eu perguntei pelo Bruno e ele disse: 'Não, mas o Bruno não foi lá.' Eu disse: 'Foi, o Bruno saiu daqui para ir.' Ele disse: 'Mas o Bruno não apareceu lá'", lembra a mãe.

"Até que o meu marido foi para a beira da praia e pegou a moto. Andou por essas ruas aqui e achou a bicicleta dele. Achou a bicicleta do Bruno."

"Quando eu voltei para procurar o Bruno, eu não encontrei. Daí eu olhei aqui, a gente viu o rastro da bicicleta e resolvei descer pela beira da praia. Tinha um rastro de pessoa adulta e tinha um rastro de um carro que tinha encostado bem onde estava a bicicleta", recorda o pai, Nazareno Cardoso da Silva.

A partir daquele momento, o desaparecimento do menino virou um dos principais casos policiais do Rio Grande do Sul.
Menino Bruno desapareceu no Litoral Norte do Rio Grande do Sul em 1999 — Foto: Fábio Almeida/RBS TV

Ajuda de vidente, suspeita de magia negra e prisões

Investigações policiais, magia negra, estrangeiros pela cidade e até escavações fizeram parte das buscas durante todos esses anos. Suspeitos chegaram a ser investigados, mas o processo foi arquivado porque prescreveu.

O homem apontado como o principal suspeito foi localizado pela reportagem recentemente, no Litoral. Ele atendeu a equipe da RBS TV, mas negou que foi acusado e disse que a suspeita do envolvimento na história, mesmo com o caso arquivado, acabou com a vida dele. O homem não quis gravar entrevista.

"Na época em que o Bruno desapareceu, na casa desse suspeito foram achados dois passaportes. De duas mulheres (...), uma era da Itália e outra era da Alemanha. Essas mulheres ficaram hospedadas na casa dele por cinco dias. E bem nessa época o Bruno desapareceu, foi bem nessa semana que o Bruno desapareceu. Então, o que eu penso? Ele deve estar fora do Brasil! Deve ter sido criado por alguém, tráfico de criança... E eu procuro muito por isso, encontrar ele fora daqui. Aqui é meio impossível, se ele estivesse aqui, eu já tinha achado", diz a mãe.

Apesar da denúncia do Ministério Público sobre um suposto homicídio e ocultação de cadáver, na época, não foram encontradas provas, como o corpo da vítima, nem testemunhas.

"O que se tem não é um caso de homicídio, mas sim de um desaparecimento de uma criança que não foi esclarecido pela investigação. A maior prova de que não se pode começar um processo por homicídio é o fato de que não só a mãe da suposta vítima como todo o contexto da investigação atual não descarta a possibilidade dele estar vivo", analisa o juiz Emerson Silveira Mota.

Quando as buscas já duravam semanas, um homem se ofereceu para ajudar a família. Ele se dizia vidente, e falava que sentia a presença de Bruno. Foi durante a investigação que os pais de Bruno descobriram que esse homem havia se tornado o principal suspeito do desaparecimento.

A polícia desconfiou dele. Investigadores perceberam que o carro que ele dirigia tinha marcas, como se tivesse batido na bicicleta de Bruno. As cores eram as mesmas.

Também se falou em magia negra. A polícia escavou dunas e encontrou uma estátua e um papel com o nome completo de Bruno escrito sete vezes.
Papel com o nome de Bruno escrito sete vezes foi anexado ao inquérito policial — Foto: Fábio Almeida/RBS TV

O suspeito acabou detido. "Ficou preso, me parece que sete dias. Ele e mais outras pessoas. Foram sete pessoas presas. Mas ninguém falou nada, ficou tudo por isso mesmo", lamenta a mãe de Bruno.

Hoje, o delegado que investigou o caso na época é advogado e trabalha em Santa Catarina.

"Eu acho que dificilmente o Bruno está vivo, mas é uma das possibilidades. O que a gente sabe é que o menino teve a bicicleta abalroada. Agora, o destino que esse menino teve ficou em aberto até pela razão da investigação não prosseguir (...) Nós temos certeza, em prova técnica, que ele [motorista] derrubou o menino da bicicleta. Agora, se foi propositalmente, se foi um acidente de trânsito....", comenta Juarez Francisco Mendonça.

Arquivos revisitados

O atual delegado de Imbé, Antônio Carlos Ractz Júnior, decidiu procurar os arquivos do caso.

"Desde quando eu cheguei aqui, eu ouço falar dessa história, como se fosse um mistério, que teria sido indiciado pela polícia ou suspeito pelo desaparecimento dessa criança, e que no fim foi denunciado pelo Ministério Público. E acabou não sendo processado. Então isso sempre despertou um interesse", diz o delegado.

Ractz, então, tomou a iniciativa de ler todos os documentos da investigação. "O caso que foi arquivado em tese só pode ser reaberto se houver novas provas e desde que não haja ocorrido a prescrição. Por isso esse cuidado de poder ou não reabrir o inquérito policial", acrescenta.

"Os pais têm esperança até hoje. Então como é que eu, um delegado de polícia, vou dizer para a mãe desistir? Como é que eu vou dizer para uma mãe desistir de procurar seu filho? Ainda mais que não há prova alguma de que realmente ele esteja morto. Embora tenham decorrido todos esses anos."
Atual delegado de Imbé, Antônio Carlos Ractz Júnior, decidiu procurar os arquivos do caso — Foto: Fábio Almeida/RBS TV

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