RADIO WEB JUAZEIRO : Dependente de shows, setor musical amarga prejuízos com pandemia

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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dependente de shows, setor musical amarga prejuízos com pandemia

Mercado mais lucrativo do entretenimento nacional não sabe como será o retorno após crise sanitária que afeta o mundo

Helder Maldonado, do R7

Aglomerações são impensáveis no momento-Patricia Lino

Todo setor econômico está receoso sobre como será o futuro após o fim da pandemia de covid-19 que atinge o mundo. Na música, não é diferente. O setor, que depende diretamente de eventos com aglomerações e viagens pode continuar a sentir os efeitos das medidas de isolamento mesmo depois do término da quarentena.

Existe um medo de que a crise econômica causada pela pandemia force o fechamento de casas de shows e diminua o público nos eventos.

Hoje, o entretenimento é um dos dez setores mais lucrativos da economia brasileira (envolvendo aí outras áreas além da música, como teatro, cinema, congressos e exposições). Dessa maneira, qualquer impacto no mercado vai refletir no desempenho econômico brasileiro dos próximos anos.


Steve Altit, um dos mais antigos produtores de shows internacionais no Brasil, lamenta o momento e é pessimista com o futuro. O executivo da Top Cat acredita que nada voltará a ser como antes. E os prejuízos com os diversos cancelamentos ainda são incalculáveis. "A situação de empresas como a nossa é ainda mais delicada, pois atuamos essencialmente com eventos internacionais. Dentro do possível, fomos hábeis na paralisação das turnês. Mas os prejuízos são enormes, pois os cachês, impostos, passagens aéreas, vistos de trabalho, hospedagens, entre inúmeras outras despesas, foram integralmente pagas, e não tivemos o aporte da bilheteria, que é nossa forma de retorno imediato do investimento", lamenta.

Steve Altit é pessimista sobre retorno de shows-Divulgação

Rodrigo Lemos, que tem atuação mais focada em artistas do mercado nacional, não é uma voz dissonante nessa avaliação. Para ele, que gerencia bandas como Blitz, Vinny e Baviera, quem sofre mais no momento são os trabalhadores da área, geralmente informais. "O mercado nunca passou por algo parecido com o que temos hoje. Mas quem realmente está sofrendo com tudo isso são os trabalhadores, em sua maioria frilas. Desde a faxineira do camarim ao segurança do artista. Do técnico de som ao iluminador. Esses operários da música estão sentindo na pele o impacto dessa pandemia", relata.

Carolina Pozzani, que empresaria bandas como Velhas Virgens, Biquíni Cavadão e Benito Di Paula, diz que a empresa 74 tem diminuído gastos em todas as áreas, mas mantendo investimentos estratégicos. "São custos que a gente tem que absorver, mas não podemos deixar a empresa parada e investir no marketing das bandas, porque na volta fica mais difícil sem esse trabalho", explica. "Além disso, tem gente que tem custos maiores, como jato ou ônibus próprio. E, claro, vão ter prejuízos bem maiores".

Lives e alternativas

Embora não tenham como lucrar com shows e eventos presenciais, os artistas têm criado outras maneiras de continuar gerando renda durante essa paralisação forçada. Um dos formatos mais bem-sucedidos do momento são as lives.

Artistas como Gusttavo Lima, Wesley Safadão, Marília Mendonça e vários outros aproveitam o espaço não só para levantar fundos para instituições de caridade, mas também para fazer merchan nas apresentações, com cachês variados.


Rodrigo Lemos acredita que lives podem ter vindo para ficar-Divulgação

Por enquanto, o resultado é positivo, tanto no faturamento quanto na audiência. Mas não existe garantia de que esses shows continuarão interessando tão fortes no longo prazo.

Claudio Lins, artista e um dos idealizadores das lives de MPB Ziriguidum em Casa (que reuniu nomes como Leila Pinheiro, Jane Duboc, Baby do Brasil, Ivan Lins e Marcos Valle), explica que o lucro também só é garantido para nomes muito famosos. "Mesmo que alguns artistas consigam monetizar com lives (só os mais populares realmente conseguem), toda a cadeia produtiva de um show está comprometida. Dificilmente a live caseira emprega tanta gente, como bilheteiros, faxineiros, contrarregras, técnicos de luz e som, camareiros, etc", lista.

Julio Quatrucci, da 74, comenta que artistas menores não têm como manter o mesmo patamar dos sertanejos nesse nicho. "Esse é um formato que não se sustenta. Ninguém tá reinventando a roda. Os sertanejos conseguem contratos grandes, mas os menores não. As lives têm dado certo também porque parte da população está enfiada em casa no momento. E o sucesso é porque as lives são gratuitas. O show não será substituído por isso, porque é uma experiência e tem confraternização. Jamais será substituído", aposta.

Rodrigo Lemos, por outro lado, confia que os eventos online integrarão mais uma fonte de rendimento aos artistas no futuro. "Talvez a grande novidade ainda não foi nem inventada. Mas, se fosse apostar, diria que a explosão dos eventos online será uma dessas novidades. Não acho difícil, num futuro próximo, termos grandes festivais em grandes palcos, porém, sem público. E sim, todos online assistindo. Me lembra um pouco a época do cinema drive-in. Cada um na sua bolha, seja ela um carro, ou agora, a própria sala de casa", aposta.

Na área de composições o impacto é menor. O setor, que hoje funciona também como uma indústria de criação para artistas de sertanejo e forró, mantém as atividades. Mas sem shows, a demanda pela liberação de músicas também cai. "Afeta tudo. Ao mesmo tempo que nossa criatividade continua, todo mundo depende dos shows. Não tem jeito", avalia Henrique Casttro, autor de hits como Liberdade Provisória (Henrique e Juliano), Propaganda (Jorge e Mateus), Na Cama Que Eu Paguei (Zé Neto e Cristiano), Sonhei Que Tava Me Casando (Wesley Safadão), Aham (Lucas Lucco) e Namorada Reserva (Hugo e Guilherme).


Claudio Lins: mercado digital não emprega tanto quanto físico-Divulgação

Steve Altit acredita que a consequência da crise será cruel e o setor musical amargará falências e fechamento de portas. "Penso que o setor sofrerá demais e apenas os capacitados saberão ou terão condições de nadar na crise. Não haverá espaço para erros. Profissionalismo será a palavra mágica para permanecer vivo no show business nacional e internacional", determina o empresário. "Algumas casas de espetáculos fecharão, portanto menos palcos. Acho que os shows de prefeitura, comemorações em cidades, que são nichos importantes para artistas populares também será dramaticamente afetado".

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