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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Produção de bonecas negras no país caiu entre 2016 e 2020, aponta pesquisa

Ashley Malia

Estudo realizado este ano mostra que entre empresas fabricantes analisadas apenas oito possuíam bonecas negras em seus inventários 
 Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE | 08.10.2020


Uma pesquisa realizada este ano pela Ong Avante – Educação e Mobilização Social apontou que o total de bonecos negros fabricados pelas indústrias diminuiu entre 2016 e 2020. De acordo com a pesquisa “Cadê nossa boneca?”, em 2016, os modelos de bonecos negros no mercado eram apenas 7% dos fabricados pela indústria. Em 2020, esse número cai para 6%, mesmo diante de políticas afirmativas e uma tomada de força expressiva nas discussões raciais e busca por representatividade negra.

Ainda conforme a pesquisa, entre as empresas fabricantes analisadas, apenas oito possuíam bonecas negras em seus inventários. A psicóloga e publicitária Mylenie Alves é uma das envolvidas no levantamento e afirmou que a demanda surgiu no contexto da maternidade de crianças negras. Ela contou que naquele momento ela percebeu a ausência de bonecas negras na própria infância.

“Era uma campanha de sensibilização, mas achamos importante entender esse processo em números. De 201 para cá, nada mudou. A nossa intenção era chamar atenção para a importância da boneca negra como parte do universo da brincadeira para crianças, sejam elas negras ou brancas, entendendo que o processo de brincar é fundamental porque ele é quase um simulacro do que a criança vai aprender ou conviver. A gente entende que brincar é não só uma atividade lúdica, mas também educativa”, afirmou Mylenie, confrontando a discrepância na produção de bonecas negras (6%, em 2020) diante de cerca de 56% da população brasileira que se autodeclara negra.

“De 2016 para cá, muito se evoluiu em questões de representatividade. O negro se colocou cada vez mais como consumidor ativo e a questão é por que o mercado permanece imutável”, completou.

“Os bonecos são representações do humano. Existe um modelo e um padrão de beleza que é construído e vendido desde a infância para todo mundo, então obviamente para a criança preta, desde pequena, quando ela entra em uma loja e não se enxerga na vitrine, com certeza ela está sendo violentada”, afirmou a psicóloga Ana Oliva Marcílio, que também participou da pesquisa. Ela pontuou ainda que a cor de pele e o cabelo são dois marcadores muito fortes do racismo brasileiro e das bonecas.

Brinquedos afirmativos

Buscando reparar a falta de inclusão, diversidade e representatividade negra na infância, Geórgia Nunes criou o projeto “Amora Brinquedos Afirmativos”, que produz e vende bonecas negras e outros brinquedos afirmativos. Além disso, para cada venda, o projeto doa um brinquedo para escolas públicas.

A empreendedora declarou que a queda na produção de bonecas negras vem na contramão da tomada de consciência das pessoas e até mesmo da demanda pelos itens. Segundo ela, o que caiu foi a oferta e isso é reflexo do racismo estrutural.

“Hoje a gente não vende apenas as bonecas negras, mas também outros brinquedos, como quebra-cabeça, giz de tons de pele – para desconstruir a educação racista que a gente recebeu na infância de que o lápis ‘cor de pele’ era rosa. Então é uma diversidade em brinquedos afirmativos”, disse Geórgia.

Ela revelou que sentiu que a demanda cresceu, sobretudo pelas bolhas terem sido, aparentemente furadas, com a ampliação da discussão racial no país. “Mesmo com a pandemia, eu tenho vendido esse ano a mesma quantidade que vendi no ano passado, então isso demonstra que a demanda tem aumentado”, frisou.
Campanha "Dugueto pelo gueto" realizou vaquinha para arrecadar dinheiro e doar bonecas negras no Nordeste de Amaralina | Foto: Renan Benedito

Representatividade na favela

Essa ausência de bonecas negras no mercado e falta de representatividade para as crianças também motivou o empreendedor Adriano Soares, proprietário da marca de roupas Dugueto, a lançar uma campanha para a arrecadação de dinheiro para doação de bonecas negras no bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador.

“Eu já pensava nesse projeto, porque no início da marca eu fiz um Dia das Crianças e fiquei me perguntando por que não consegui encontrar bonecas negras. Não tinha e as que encontrei eram super caras”, contou o proprietário da marca. Ele disse ainda que, na época, uma moça fez uma vaquinha para conseguir brinquedos e também encontrou a mesma dificuldade.

Intitulada “Dugueto pelo gueto”, a campanha foi lançada no mês de agosto e já ultrapassou a meta de R$ 4 mil, alcançando a marca de R$ 5,9 mil em doações para o projeto.

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