RADIO WEB JUAZEIRO : Manaus é um alerta do que pode acontecer com o resto do Brasil, diz infectologista da Fiocruz
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Manaus é um alerta do que pode acontecer com o resto do Brasil, diz infectologista da Fiocruz


O médico infectologista Marcus Lacerda lidera pesquisa sobre uso da cloroquina em casos do novo coronavírus em Manaus

Ana Lucia Azevedo

O infectologista da Fiocruz Marcus Lacerda atende a pelo menos 40 casos de Covid-19 em Manaus todo os dias e se surpreende com o fato de que, diferentemente do ocorrido na primeira onda, no início de 2020, desta vez famílias inteiras têm contraído a doença. Para ele, a emergência de uma nova linhagem do coronavírus pode ser, em parte, a responsável.

O especialista explica que a capital amazonense foi duramente atingida no ano passado em função do seu perfil condensado. E também pela entrada do patógeno no estado por meio de rotas aéreas do exterior no início da temporada de vírus respiratórios da Região Norte. Para Lacerda, é muito provável que o cenário se repita na segunda onda e se agrave ainda mais com a combinação do atraso na aplicação de vacinas com a ausência de medidas restritivas bem executadas, como lockdowns.

Cientista reconhecido por seus trabalhos pioneiros em doenças infecciosas, Lacerda é um dos infectologistas mais experientes do Amazonas e está na linha de frente do combate da Covid-19. Ele acredita que Manaus não é um caso isolado, e sim um alerta do que pode ocorrer no restante do país, caso a vacinação em massa não comece imediatamente.

Por que Manaus adoece explosivamente agora?

Porque ela também foi a primeira a sofrer com o caos na primeira onda. O coronavírus segue o padrão dos vírus respiratórios sazonais. A influenza sempre começa por aqui e depois desce, o Sul é sempre o último. Mas esse caos que sofremos aqui vai se alastrar (país afora) se vacinas não chegarem e lockdowns bem feitos não acontecerem. Manaus não é exceção nem tão diferente assim, tampouco (tão) pior do que o restante do país. A cidade é, aí sim, um farol do que acontecerá com o resto do Brasil, se a vacinação em massa não começar já.

Por que a Covid-19 explodiu primeiro em Manaus no ano passado?

A cidade é muito condensada, os vírus entram por avião do exterior e ainda tivemos a coincidência da chegada do Sars-CoV-2 com o início da temporada de vírus respiratórios na Região Norte, que coincide com a estação chuvosa. Manaus tem todos os anos surtos de influenza primeiro do que o restante do Brasil. O coronavírus seguiu esse caminho e tudo leva a crer que nessa segunda onda a mesma coisa vai acontecer.

O que puxou essa segunda onda com tanta força?

Há vários fatores. Os lockdowns mal feitos, fora de hora, a baixa adesão da população ao distanciamento social e ao uso de máscaras estão entre os motivos e estes se repetem no restante do país também. Mas não é apenas isso.
E o que mais?

A emergência de uma nova linhagem do Sars-CoV-2 que, aparentemente, é mais contagiosa e também consegue escapar do ataque dos anticorpos quando este não é muito potente. São ainda indícios, não há nada comprovado.
Que linhagem é essa?

Todo mundo fala dos japoneses (que voltaram da cidade com o vírus para o país asiático), mas sequenciamos aqui 11 amostras e seis delas tinham duas mutações. Essas mutações são a E484K e a N501Y. Ambas afetam a parte mais fundamental da proteína S. Por sua vez, essa é a mais importante do vírus e alvo de vacinas e dos anticorpos. A primeira já foi encontrada em outras partes do Brasil, como no Rio de Janeiro, e a segunda é aquela vista primeiramente na África do Sul.

De onde teria vindo essa linhagem?

Muito provavelmente de lugar algum. Ela emergiu de forma independente aqui. Os vírus estão o tempo todo sofrendo mutações e tentando se adaptar. Os vírus mais transmissíveis e que escapam de anticorpos, claro, levam vantagem. Assim, vírus que tenham mutações com essas características acabam por ser naturalmente selecionados e se tornam dominantes. E, por isso, mutações com essas características podem surgir e se estabelecer de forma independente em vários lugares.
Qual seria essa disseminação em Manaus?

Talvez essa linhagem já predomine e seja responsável por mais de 50% dos casos de infecção em Manaus. Ela ainda não predomina no resto do país, mas pode ser uma questão de tempo.

Essa linhagem pode já ter se espalhado para outras partes do país?

Provavelmente. Quando vemos tantos casos de doença é porque o vírus já se disseminou há mais tempo. E essa linhagem, aparentemente, escapa dos anticorpos se não são muito potentes e também é mais contagiosa. Vemos famílias inteiras infectadas, doentes, inclusive os mais jovens. Isso não ocorria na primeira onda, quando, em geral, você tinha um ou dois casos na mesma família. Agora o normal é toda a família adoecer. Mas isso são ainda indícios. Porém, vendo pacientes todos os dias, temos a sensação de que as mutações estão se espalhando.

Como?

Com as pessoas sem sintomas ou com poucos sintomas. Não são os doentes que espalham a Covid-19. Estes são os mais fáceis de manter os devidos cuidados para evitar a transmissão.

Manaus pode estar sofrendo reinfecções em massa?

Sim, existe uma forte possibilidade. Manaus teve um alto nível de exposição ao coronavírus no início do ano. Acredita-se que mais de 60% da população tenha sido exposta ao coronavírus. Essas pessoas, que tiveram sintomas leves de Covid-19 ou sequer desenvolveram algum sintoma, podem ter feito alguma resposta de anticorpos, mas ela se foi ou é fraca demais para segurar uma nova linhagem.

Vocês têm casos comprovados de reinfecção?

É muito difícil comprovar uma reinfecção porque é preciso ter amostras do primeiro e do segundo episódio e ainda sequenciá-las. Temos um (único) caso comprovado de reinfecção, mas devem haver muitos mais. O caso é de uma mulher que tinha anticorpos IgG para o coronavírus e ainda assim adoeceu de novo com Covid-19. Seus anticorpos não conseguiram deter o coronavírus. (O Ministério da Saúde confirmou nesta sexta-feira, após a entrevista, um caso de reinfecção pela nova variante em Manaus)

E os casos de reinfecção são mais graves?

Isso ainda não podemos afirmar. Vejo, em média, 40 pessoas por dia e a doença não parece ser mais grave. O que torna o surgimento de uma linhagem mais contagiosa mais grave é o fato de mais gente adoecer ao mesmo tempo e de se colocar uma imensa pressão sobre o sistema de saúde, que colapsa. Não é que a doença tenha se tornado mais grave.

O que precisa ser feito?

Há muita coisa que não sabemos sobre novas mutações, sobre o coronavírus. Mas é certo que neste momento o isolamento social precisa ser intenso e a vacinação é urgente. Não temos outra chance.

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