RADIO WEB JUAZEIRO : "Vou continuar lutando até o último dia de vida", diz mãe de Lucas Terra; morte completa 20 anos
segunda-feira, 22 de março de 2021

"Vou continuar lutando até o último dia de vida", diz mãe de Lucas Terra; morte completa 20 anos

Raphael Santana

Há duas décadas, Marion Terra une forças para lutar por Justiça na condenação dos pastores acusados do assassinato de Lucas Terra | Foto: Arquivo Pessoal


“Uma mãe que perde um filho perde seu futuro, perde a vontade de continuar vivendo”. Esta é a dor de Marion Terra, mãe do adolescente Lucas Vargas Terra, de 14 anos, cujo assassinato completa 20 anos neste domingo, 21.

Era por volta das 20h do dia 7 de abril de 2001, quando Marion recebeu a trágica notícia: o corpo do filho tinha sido encontrado mais de duas semanas depois de seu desaparecimento, carbonizado, em um terreno baldio na avenida Vasco da Gama, em Salvador. Ela havia acabado de desembarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), em um voo vindo da Itália.

Quando eu soube da notícia foi muito desesperador. Foi como se o mundo tivesse desabado

Marion Terra, mãe de Lucas “Quando eu soube da notícia foi muito desesperador. Foi como se o mundo tivesse desabado”, relembra. “Logo depois, começamos a procurar a imprensa para nos ajudar, que era a voz que a gente não tinha”.

Crime

O crime contra o adolescente aconteceu dentro de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Rio Vermelho. A vítima foi torturada, estuprada e mantida em cárcere privado antes de ser queimada viva. Os acusados são os pastores Joel Miranda, Fernando Aparecido da Silva e Silvio Roberto Galiza. Na época, o pai da vítima, José Carlos Terra, apontou como motivo para o crime o fato de o filho ter flagrado os pastores Joel e Fernando fazendo sexo, com base no testemunho de Galiza.

Silvo Galiza foi condenado, em dois júris, a 18 anos de prisão, pena que foi reduzida para 15 anos. Fernando e Joel ainda aguardam julgamento popular em liberdade. Eles foram promovidos e estão atuando como bispos da Igreja Universal. Em 2017, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recurso especial para Joel e Fernando, que pediram a suspensão do júri popular. A advogada da família Terra, Tuany Sande, relata preocupação e provável prescrição do crime.

Mesmo que aconteça o júri, eles vão ter direito a recorrer em liberdade

Tuany Sande, advogada da família Terra “Nunca houve marcação do júri. O problema é que, por causa da pandemia, o júri está suspenso. Em geral, o crime de homicídio prescreve em 20 anos. Mesmo que aconteça o júri, eles vão ter direito a recorrer em liberdade”, lamenta.

A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 2684/10 que suspende a contagem do prazo de prescrição de crimes durante a vigência de estado de calamidade pública provocado por surto, epidemia ou pandemia. A proposta, do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), altera o Código Penal para suspender a prescrição da pretensão punitiva (interesse em processar o acusado) e executória (interesse em executar a pena) do Estado.

A advogada diz que a maior Justiça é provar que os bispos cometerem o crime. “Mesmo que não entrem no Sistema Penitenciário, eles não podem dizer que não participaram. O caso Lucas Terra é uma resposta social. Infelizmente, não é culpa do Processo Penal, mas da aplicação da Justiça. O nosso judiciário permitiu a abertura de muitas brechas para que o processo se prolongasse”, critica.

Live

Para marcar os 20 anos do crime contra o garoto Lucas Terra, uma live será realizada neste domingo, promovida por Marion. A transmissão ao vivo contará com as participações do promotor de Justiça da Bahia, Davi Gallo - que representou o Ministério Público (MP) no tribunal do júri que condenou Silvio Galiza -, da advogada Tuany Sande e do perito psicólogo Felipe Gomez. O encontro está marcado para as 18h, no perfil oficial de Marion no Instagram.

Carlos Terra escreveu e lançou o livro 'Lucas Terra - Traído pela obediência', em 2016, em que narra detalhes de sua luta para esclarecer o crime brutal do qual o filho foi vítima | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Perfil psicológico

De acordo com a análise do perito psicólogo Felipe Gomez, os acusados do crime apresentam um perfil de personalidade sádico, por causa das características do assassinato, com requinte de crueldade, e narcisista.

São pessoas maquiavélicas porque a intenção dessa sedução que exercem nas outras pessoas é de se beneficiar

Felipe Gomez, perito psicólogo “Eles acreditam que têm uma mensagem especial para passar ao mundo, principalmente pelos cargos messiânicos que ocupam, são controladores e emocionalmente sedutores devido às atividades, influência e poder. Então, acabam, por sua vez, em função do cargo que ocupam e do poder que exercem, mascarando a sua verdadeira personalidade”, detalha.

Segundo Gomez, por ocuparem estes cargos de poder e influência, eles são indivíduos de difícil identificação, uma vez que apresentam para a vida social o oposto desta perversidade: uma pessoa confiante, de respeito e uma autoridade. “São pessoas maquiavélicas porque a intenção dessa sedução que exercem nas outras pessoas é de se beneficiar. Podem possuir característica de um líder de seita. Formam dentro daquela comunidade um papel ativo de liderança e esse papel cria uma mentalidade propícia para que ele possa subjugá-las às suas vontades”, explicou

Mais uma perda para Marion

Companheiro de Marion na luta por Justiça no caso envolvendo o filho adolescente, José Carlos Terra morreu, aos 65 anos, em fevereiro de 2019, vítima de uma parada respiratória decorrente de uma cirrose hepática. Marion atribui a morte à notícia, em novembro de 2018, de que a decisão que apontou o envolvimento de Fernando Aparecido na morte de Lucas Terra havia sido anulada pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF, por falta de provas.

Imagem de José Carlos Terra em frente ao Fórum Ruy Barbosa, em Salvador | Foto: Carlos Casaes | Ag. A TARDE, em 23/06/2002

“Carlos estudou Direito para atuar no processo e para que acontecesse o júri. Quero que eles sentem no banco dos réus e que seja sacramentada a culpabilidade deles. Eles não vão ficar impunes, nem que eu tenha que ir para o Tribunal de Haia. Vou continuar lutando até o último dia da minha vida”, reafirma.


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