RADIO WEB JUAZEIRO : Hérnia umbilical atinge cerca de 8% da população adulta brasileira
segunda-feira, 12 de julho de 2021

Hérnia umbilical atinge cerca de 8% da população adulta brasileira

Jane Fernandes

Cirurgião Luiz Vianna é sócio fundador do Centro Bahiano de Hérnias | Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE

Estimativas da Sociedade Brasileira de Hérnia apontam que 8% da população adulta do país teve ou terá hérnia umbilical em algum momento da vida. Quanto às hérnias inguinais, o percentual sobe para 20% quando é considerada somente a prevalência entre os homens. Os dois tipos citados são os mais comuns entre as hérnias de parede abdominal de maior ocorrência, com as inguinais correspondendo a 75% do total de casos.

“A hérnia de parede abdominal é uma protusão de algum conteúdo de dentro do abdômen para fora através de uma falha na parede abdominal”, explica o coordenador do serviço de cirurgia de parede abdominal do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes/Ufba), Luiz Vianna. De forma simplificada, o que ocorre é o escape de alguma estrutura originalmente contida no abdômen, que pode ser até mesmo parte de um órgão, a depender do tipo de hérnia.

Sócio fundador do Centro Bahiano de Hérnias, o cirurgião detalha que a parede abdominal é composta por músculos, aponeurose (membrana que reveste esses músculos), gordura subcutânea e pele. “Quando tem uma falha nessa barreira, gerando uma espécie de orifício, o que está dentro do abdômen pode sair por esse orifício”, reforça. Além das hérnias inguinais e umbilicais, existem outros dois tipos relativamente frequentes: incisionais e epigástricas.

Região da virilha

Presentes em um quinto dos homens e com prevalência de 3% a 5% nas mulheres, as hérnias inguinais são as mais comuns na população em geral e surgem na região da virilha. “É resultante de uma fraqueza da parede abdominal, muito associada a distúrbios de colágeno, por exemplo, quem é mais idoso também fica mais propenso, pois com o tempo tem uma fraqueza das estruturas da parede abdominal”, detalha Vianna, referindo-se à inguinal direta.

Já as hérnias inguinais indiretas, acrescenta o médico, estão mais associadas a defeitos congênitos. “O testículo, nas primeiras fases da vida, fica dentro do abdômen e com o tempo migra para a bolsa escrotal, quando esse trajeto não é fechado adequadamente (o que ocorre espontaneamente) pode dar origem a uma hérnia”, complementa.

Normalmente congênita, a hérnia umbilical surge no local que passa o cordão umbilical, responsável por fazer a comunicação do feto com a placenta durante a gestação. Segundo o especialista, pode acontecer desse orifício de origem do cordão não se fechar completamente, o que deve ocorrer até o 3º ano de vida da criança, e se transformar em uma hérnia.

“A hérnia epigástrica é semelhante à umbilical, mas é uma falha na linha média, ponto no meio do abdômen onde a musculatura se une, que é uma potencial zona de fraqueza, principalmente depois de uma gestação”, conta o cirurgião. Tecnicamente chamada de diástase dos retos abdominais, a separação desses músculos que ficam no meio do abdômen criam uma zona de fraqueza, propiciando as condições para o aparecimento de uma hérnia.

Vianna comenta que existem outros tipos de hérnia de parede abdominal, a exemplo da hérnia de Spiegel, mas que é bastante rara. Ele cita ainda as hérnias femorais, que também são incomuns e aparecem mais frequentemente em mulheres. Sua localização é na região inguinal, em uma área na qual passam as veias e as artérias femorais, que fazem o transporte de sangue da coxa para as pernas.

“Por esse orifício, onde passa principalmente o osso da bacia, pode sair uma hérnia. Essa hérnia tem uma característica bem peculiar, pois uma parte do anel herniário (o orifício) é composto por osso. É uma hérnia mais propensa a causar dor e também mais propensa ao encarceramento”, explica o médico. Um dos aspectos que tornam a região inguinal propensa a hérnias é a existência de uma área não revestida por músculos, chamada de Orifício Miopectíneo de Fruchaud.

Fatores de risco

Como as hérnias podem ser congênitas, ou seja, o indivíduo já nascer com ela, não há uma faixa etária com maior incidência, segundo o especialista, mas o problema pode se agravar com o passar dos anos. Os principais fatores de risco são aqueles que aumentam a pressão intra-abdominal, a exemplo da obesidade e gravidez, mas tabagismo e diabetes também são elementos importantes. Há ainda uma deficiência congênita na produção de colágeno que aumenta a propensão a hérnias, sobretudo inguinais, acrescenta.

As hérnias podem permanecer assintomáticas, mas isso não exclui o risco de complicações, alerta o cirurgião. O sintoma mais comum é a dor, principalmente quando a pessoa faz algum esforço. “Não necessariamente a dor é sinal de complicação, embora a complicação, na quase totalidade dos casos, seja acompanhada de dor”, ressalta. Seja pelo incômodo estético causado pela hérnia ou pela presença de dor, um médico deve ser procurado para fazer o diagnóstico correto.

EXAME CLÍNICO É CHAVE PARA DIAGNÓSTICO

O exame clínico é a peça central do diagnóstico das hérnias de parede abdominal, informa o cirurgião Luiz Vianna, sócio fundador do Centro Bahiano de Hérnias. “Se for muito pequena, a gente pode não identificar, então se lança mão de ultrassonografia, tomografia ou ressonância magnética, a depender do caso. Mas é uma conduta excepcional”, reforça.

Embora existam medidas paliativas para postergar uma intervenção cirúrgica, como o uso da funda para evitar a protusão, a única forma de tratamento dessas hérnias é a cirurgia, esclarece o médico. Como a tendência é que o risco de complicações aumente com o passar do tempo, assim como o risco cirúrgico avançará com a idade do paciente, a recomendação geralmente é operar o quanto antes, mas cada caso precisa ser avaliado detalhadamente.

“Se eu tenho um paciente que tem uma disfunção cardíaca importante, uma disfunção respiratória importante, que torne o risco cirúrgico elevado, e ele tem uma hérnia umbilical pequena, assintomática, que eu não vejo muita chance de complicar, a gente pode observar. Mas esses casos são exceções, o ideal é corrigir logo que detecta a hérnia porque em algum momento você provavelmente vai precisar operar”, exemplifica o especialista.

Vianna ressalta que a cirurgia de hérnia é simples e pode ser feita por videolaparoscopia e robótica, técnicas minimamente invasivas. “(As técnicas) geram muitos benefícios no pós-operatório, principalmente por conta dos cortes muitos menores. A gente faz a cirurgia sem abrir o abdômen, sem abrir a virilha, com a robótica se consegue fazer até de hérnias maiores, mais complexas”, diz.

Uso de prótese

“O principal aspecto da cirurgia, hoje, é o uso de uma prótese em formato de tela, geralmente de polipropileno, mas também pode ser de outros materiais inertes, que não provocam rejeição”, comenta o cirurgião. Ele lembra que a colocação da tela na região herniada é bastante comum, mas não obrigatória, e que sua principal função é evitar recidivas.

Se a hérnia não for removida, a primeira complicação que pode surgir é o encarceramento, caracterizado pela impossibilidade de colocar o tecido herniado de volta ao interior do abdômen. “Habitualmente a hérnia sai e volta, o próprio paciente consegue colocar para dentro do abdômen, é a chamada hérnia redutível”, explica o cirurgião, acrescentando que a hérnia pode voltar a sair após essa ação do paciente.

Uma vez que a hérnia fique encarcerada fora do abdômen, há o risco de ocorrer o estrangulamento. “É quando o orifício estrangula o conteúdo que herniou e não chega sangue. Se não chega sangue, o tecido não é nutrido, então necrosa e morre. O grande risco é quando uma parte do intestino passa pelo orifício, pois vai ter de ressecar (remover) um segmento de intestino ”, detalha o especialista.

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